Parceria prevê formação de profissionais, fortalecimento da rede de atendimento e atuação integrada na Baixada Fluminense
A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) recebeu, nesta quinta-feira (30/04), a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, para a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica voltado à formação de profissionais que atuam no atendimento a mulheres em situação de violência. A iniciativa busca fortalecer políticas de prevenção e ampliar a rede de proteção por meio da parceria entre universidade e governo federal.
O acordo prevê a realização de ações formativas com equipes de atendimento, como as da Casa da Mulher Brasileira e centros de referência, integrando essas atividades à extensão universitária e garantindo certificação reconhecida pelo Ministério da Educação.

A solenidade foi realizada no Salão Azul, com abertura marcada pela composição da mesa de autoridades e execução do hino nacional. Estiveram presentes a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, o reitor da UFRRJ, Roberto Rodrigues, o vice-reitor César Da Ros, a secretária de Estado da Mulher do Rio de Janeiro, Heloisa Aguiar, a deputada estadual Elika Takimoto, a pró-reitora de Extensão, Maria Ivone Barbosa, e a pró-reitora de Assuntos Estudantis, Joyce Alves, além de outras autoridades, representantes institucionais e a turma do último ano do curso de Hotelaria do CTUR, acompanhados pela professora de eventos Vânia Madeira, que prestaram apoio na organização da solenidade.
À frente do Ministério das Mulheres desde 2025, Márcia Lopes, graduada em Serviço Social e ex-docente da Universidade Estadual de Londrina, tem conduzido uma agenda voltada ao fortalecimento de políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero no Brasil. Com trajetória ligada à formulação de políticas sociais, ela defende a articulação entre governo, universidades e sociedade como caminho para ampliar a proteção e garantir direitos.
Durante a visita à UFRRJ, a ministra destacou o papel das instituições de ensino nesse processo, afirmando que “a universidade é um espaço plural, de construção do conhecimento e de relação com os territórios”, além de ressaltar a responsabilidade na formação de profissionais capazes de atuar na transformação social.

Entre as principais ações da pasta, estão iniciativas voltadas à prevenção, à educação e ao fortalecimento da rede de atendimento. O Ministério tem investido na ampliação do Ligue 180, canal nacional de denúncias que funciona 24 horas por dia e atende em diferentes formatos de comunicação, além de promover campanhas e ações formativas em todo o país. Ela também destacou que a violência contra mulheres se manifesta de diversas formas, desde situações naturalizadas no cotidiano até casos extremos, afirmando que as agressões vão de uma piada até o feminicídio.
A gestão também tem atuado na construção de estratégias nacionais, como o Pacto Brasil contra o Feminicídio, que articula diferentes poderes e níveis de governo para enfrentar a violência de forma estruturada. Segundo Márcia Lopes, o enfrentamento precisa envolver toda a sociedade. “O pacto é para os homens também. Ninguém nasce agressor, mas aprende a ser”, afirmou. Ela ainda defendeu que políticas públicas só são eficazes quando consideram as realidades dos territórios e das diferentes mulheres, destacando a importância de olhar para contextos como o da Baixada Fluminense, onde está inserida a UFRRJ, marcado por desigualdades sociais e dificuldades no acesso a direitos.
Durante sua fala, a ministra também abordou desigualdades estruturais que atravessam a vida das mulheres brasileiras, como a diferença salarial, que ainda chega a 21% em relação aos homens na mesma função, e a sobrecarga do trabalho de cuidado. Nesse contexto, citou a implementação de políticas como as “cuidotecas” — espaços públicos destinados ao acolhimento de crianças — e o Plano Nacional de Cuidados, voltados a reconhecer o cuidado como responsabilidade do Estado. “As mulheres cuidam, mas também precisam ser cuidadas”, afirmou.
A ministra também contextualizou os desafios enfrentados na reconstrução de políticas públicas nos últimos anos, destacando a retomada de estruturas institucionais e a necessidade de reorganizar programas e ações em nível nacional. Para ela, o enfrentamento à violência exige atuação conjunta entre diferentes áreas do governo, além de investimento contínuo e compromisso político. “Não é possível tratar essa pauta como responsabilidade de um único setor, é um compromisso de todo o Estado”, afirmou, ao defender que as políticas de gênero devem estar presentes em diferentes áreas da gestão pública.
Nesse contexto, a visita à UFRRJ se insere em uma estratégia mais ampla de integração entre políticas públicas e instituições de ensino. Ao comentar a assinatura do acordo, a ministra ressaltou que a iniciativa não deve se limitar a um ato formal, mas resultar em ações concretas de formação e mobilização social. A parceria reforça a educação como ferramenta central no enfrentamento à violência contra mulheres, aproximando o conhecimento acadêmico das demandas sociais e ampliando o alcance das políticas públicas em regiões como a Baixada Fluminense, onde desigualdades tornam ainda mais urgente o fortalecimento de ações de prevenção e proteção.
Durante a mesa, a pró-reitora de Assuntos Estudantis, Joyce Alves, resgatou a trajetória da Universidade no enfrentamento às violências de gênero, destacando mudanças institucionais ao longo dos últimos anos. Em formato de carta aberta direcionada à ministra, ela relembrou que, ao assumir como docente em 2012, a UFRRJ era marcada por episódios recorrentes de violência e pela reputação de ser um ambiente hostil à população LGBTQIA+.

A partir da mobilização de estudantes e coletivos feministas, especialmente entre 2015 e 2017, “as mulheres ruralinas gritavam que ‘não é não’ e que a violência e a impunidade tinham que acabar”, afirmou Joyce. A partir desse movimento, a universidade passou a adotar algumas medidas institucionais, como políticas de acolhimento, campanhas de prevenção e estruturas permanentes de enfrentamento à violência. Joyce destacou a criação de setores como a Coordenação da Política Institucional pela Diversidade, Gênero, Etnia/raça e Inclusão (CPID), responsável pelo atendimento e orientação à comunidade acadêmica.
Segundo a pró-reitora, a universidade também avançou na formação de servidores, com cerca de 200 profissionais capacitados entre 2022 e 2024, além da criação de protocolos de denúncia e ações voltadas à inclusão, como a adoção de cotas para pessoas trans. “A Rural não vive numa bolha”, afirmou, ao relacionar os casos à realidade social mais ampla.

Apesar dos avanços, ela ressaltou que ainda há desafios. Atualmente, a instituição lida com processos relacionados a diferentes formas de violência, como assédio moral, sexual, transfobia e racismo. Para ela, o enfrentamento exige mudanças culturais e investimento contínuo, pois “Sem recurso orçamentário e de pessoal, fica mais difícil avançar”.
A proposta também dialoga diretamente com os desafios enfrentados na Baixada Fluminense, território onde está inserida a UFRRJ e que concentra altos índices de violência contra mulheres. Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro indicam que municípios da região aparecem com frequência entre os que registram maior número de casos de violência doméstica, lesão corporal e feminicídio no estado. Relatórios como o Dossiê Mulher apontam ainda que a maior parte das ocorrências acontece no ambiente doméstico, geralmente envolvendo parceiros ou ex-parceiros, além de destacarem a subnotificação — quando casos não são denunciados ou registrados oficialmente — como um desafio recorrente em áreas periféricas.
Nesse contexto, Márcia Lopes ressaltou que um dos principais obstáculos para a efetivação de políticas públicas é a fragmentação das gestões municipais. Segundo ela, “o maior desafio é exatamente unificar as gestões locais”, ao defender maior articulação entre diferentes áreas. A ministra também enfatizou que a política para as mulheres só se torna efetiva quando há junção entre setores como saúde, educação, assistência social e justiça.
A realidade dos municípios da Baixada também foi destacada por gestores locais presentes no evento. O secretário municipal de Direitos Humanos de Japeri, Luiz Henrique, afirmou que, apesar de ser uma cidade de pequeno porte, o município enfrenta altos índices de violência contra mulheres e tem buscado estruturar políticas específicas para o enfrentamento do problema. Em localidades como Japeri, a limitação da rede de atendimento e a menor presença de serviços especializados dificultam o acesso das vítimas à proteção e aos mecanismos de denúncia. Dados do Instituto de Segurança Pública indicam ainda que municípios menores da região apresentam taxas proporcionais elevadas de violência doméstica, mesmo com menor número de registros que também pode estar associado à subnotificação.
Segundo ele, a participação no evento representa uma oportunidade de fortalecer esse trabalho e ampliar o diálogo com outras instituições da região. “É importante a prefeitura estar participando”, afirmou. O secretário também destacou o papel da universidade nesse processo, ao afirmar que a UFRRJ “não é uma universidade da cidade de Seropédica, é uma universidade da Baixada Fluminense”, reforçando sua importância na promoção de direitos e no apoio aos municípios do entorno.

Nesse sentido, o acordo firmado com o Ministério das Mulheres amplia o potencial de atuação da universidade para além do espaço acadêmico. Como apontado pelo vice-reitor César Da Ros, as ações não devem se restringir ao ambiente universitário, mas se expandir para a sociedade, contribuindo para o enfrentamento das desigualdades de gênero de forma mais ampla. A iniciativa reforça o papel estratégico da universidade na articulação com os territórios e na construção de respostas concretas para problemas sociais da região.
Texto: Karla Xavier, estagiária de Jornalismo da CCS/UFRRJ
Fotos: Fernanda Barbosa, Felipe Araújo e Miriam Braz, da CCS/UFRRJ