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Portal UFRRJ > INSTITUCIONAL > Notícia > Em cerimônia no câmpus Nova Iguaçu, UFRRJ outorga título de Doutora Honoris Causa à deputada Erika Hilton 

Em cerimônia no câmpus Nova Iguaçu, UFRRJ outorga título de Doutora Honoris Causa à deputada Erika Hilton 

Acadêmico | 30/06/2026 - 09:23

Com a presença de diversas personalidades ruralinas e um público recorde que lotou as dependências do auditório do Instituto Multidisciplinar e que extrapolou todas as previsões da comunidade acadêmica, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) outorgou – em cerimônia realizada na última sexta-feira de junho (dia 26) – o título de Dra. Honoris Causa à deputada federal Erika Hilton, por decisão do Conselho Universitário da instituição.

Deputada Erika Hilton recebendo o título de Doutora Honoris Causa das mãos do Vice-Reitor, Cesar Da Ros

A honraria acadêmica foi entregue à parlamentar pelo vice-reitor da instituição, professor Cesar da Ros, que presidiu a mesa diretora ao lado da pró-reitora de Assuntos Estudantis, professora Joyce Alves, do diretor do IM/UFRRJ, professor Márcio Borges, e de representantes dos movimentos LGBTQIAPN+, Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA e a estudante Ayoluwa, do curso de Ciências Sociais da Universidade Rural e coordenadora geral do Coletivo Madame.

Também marcaram presença na plateia da cerimônia os pró-reitores adjuntos de Extensão, professor Marcos Pasche, e de Graduação, professor Cláudio Melibeu Bentes, além dos senhores Silvio Cesar dos Santos e Marlucio Barbosa, pró-reitores adjunto e titular de Infraestrutura e Segurança Institucional, respectivamente.

Duas parlamentares da Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estiveram presentes na homenagem à deputada Erika Hilton: as deputadas estaduais Renata Souza e Dani Balbi.

Erika foi alvo da concessão do título de Doutora Honoris Causa por sua combativa atuação na defesa dos direitos humanos e das causas sociais. Vereadora mais votada do país em 2020, por dois anos presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo. Posteriormente, tornou-se a primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história política do Brasil. Sua importância na sociedade reside no fato da quebra de barreiras institucionais e na liderança por justiça social, direitos humanos e pela inclusão das populações LGBTQIAPN+, negra e periférica. 

Público lotou auditório do IM para assistir homenagem à deputada Erika Hilton

Como deputada federal pelo estado de São Paulo, Erika Hilton é integrante das seguintes comissões: Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (atual presidenta), Comissão Especial sobre Inteligência Artificial e Comissão Especial sobre o Fim da Escala 6×1. Ela é autora da PEC 08/2025, em parceria com o deputado Reginaldo Lopes (autor da PEC 221/2019), que previam o fim da escala de trabalho 6×1 e implantação da jornada 4/3.

Nascida em dezembro de 1992, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, Erika Hilton cresceu na periferia de Francisco Morato. Formou-se no curso de Pedagogia, pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Uma das responsáveis pela indicação da honraria direcionada à deputada, a pró-reitora de Assuntos Estudantis Joyce Alves fez uso da palavra. Ela declarou-se feliz e emocionada com a realização da cerimônia e revelou para a deputada agraciada que desde outubro do ano passado está envolvida com a organização do evento e articulando as ações para a concessão do título em conjunto com a equipe da deputada federal. Ela saudou o momento como histórico não apenas para a Universidade Rural, mas para todo o Brasil, acrescentando que a solenidade celebra uma trajetória feita de coragem, essência e compromisso com a dignidade humana. Joyce Alves ressaltou que a presença de Erika no Congresso Nacional não se dá por acaso, sendo o resultado de anos de militância nos movimentos sociais, marcada por desafios também em sua caminhada acadêmica.

As representantes dos movimentos LGBTQIAPN+, Bruna Benevides e Ayoluwa também saudaram e parabenizaram a deputada pela conquista da honraria acadêmica.

Em seguida, em nome da UFRRJ, o vice-reitor Cesar Da Ros fez a entrega oficial e solene do título de Doutora Honoris Causa à deputada federal Erika Hilton, despertando euforia e aplausos entusiásticos da plateia. Ele deu as boas-vindas aos presentes definindo o ato como muito importante, histórico e simbólico para a Universidade Rural. Ele aproveitou para cumprimentar a professora Joyce Alves, primeira mulher trans a ocupar um cargo na Administração Superior da UFRRJ.

O vice-reitor também cumprimentou o diretor do IM/UFRRJ, professor Márcio Borges, pela presença e iniciativa de apoio à solenidade realizada no câmpus da UFRRJ em Nova Iguaçu, o coração da Baixada Fluminense. Por fim, o professor Cesar Da Ros ressaltou que a concessão do título de Dr. Honoris Causa por uma instituição universitária representa o reconhecimento institucional a uma pessoa que tenha se distinguido pela sua relevante contribuição prestada para o desenvolvimento da Educação, Ciência, Cultura, Artes, Filosofia e das Letras, em favor do país e da Humanidade. Segundo ele, essa é a grandeza do título honorífico conferido a deputada, expressando também o reconhecimento do Conselho Universitário da UFRRJ acerca da importância da singular trajetória da homenageada e sua relevante contribuição prestada à sociedade brasileira na luta social e política na defesa dos direitos humanos, dos direitos da população LGBTQIAPN+, da população negra e das classes trabalhadoras brasileiras. Nessa conjuntura, o vice-reitor lembrou que a deputada tem caracterizado sua atuação pela ousadia, coragem e destemor na defesa das pautas acima citadas – no Parlamento e também fora dele – onde faz o confronto direto contra os interesses das classes dominantes, que nunca abriram mão de seus privilégios e regalias e que contribuem ao longo de nossa História para perpetuar a chaga da desigualdade e da injustiça social em nosso país.

Diretor do IM/UFRRJ, professor Márcio Borges

Em seu pronunciamento, o diretor do IM/UFRRJ, professor Márcio Borges, começou fazendo menção ao dia 28/6/1969, quando teve início a Rebelião de Stonewall, em Nova Iorque (EUA). Durante uma batida policial truculenta no bar Stonewall Inn (frequentado pela comunidade LGBTQIAPN+), os frequentadores decidiram resistir às prisões arbitrárias e à violência, que criminalizavam suas identidades.

A homossexualidade era considerada crime em quase todos os estados americanos na década de 1960. Naquela madrugada, em vez de se dispersarem pacificamente, os clientes do bar e a população local reagiram, iniciando um confronto que redundou em dias de protestos exigindo o fim da violência policial contra os homossexuais. A data deu origem ao Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ (Orgulho Gay), celebrado mundialmente.

Após essa breve introdução o diretor do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ fez sua própria apresentação à deputada Erika Hilton: ele declarou-se como o primeiro diretor LGBTQIAPN+ eleito pela comunidade acadêmica do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ. Ele informou que o IM – que neste ano completou 20 anos de existência – é a maior unidade de ensino da Universidade Rural, contando com cerca de 5 mil alunos, 260 docentes e 70 servidores técnicos-administrativos, além de profissionais terceirizados. De um ano pra cá, Márcio lembrou que vem estabelecendo parcerias entre o instituto e a sociedade local, tendo sido a Casa Dulce Seixas (situada no bairro da Posse, em Nova Iguaçu) o primeiro local contactado por ele. Trata-se do primeiro espaço de acolhimento, por tempo indeterminado, de pessoas LGBTQIAPN+ em situação de rua, vulnerabilidade socioeconômica ou violência doméstica da Baixada Fluminense. Ele contou que foi nesse território que deparou-se com a realidade trágica do indivíduo negro, periférico e marginalizado, percebendo que poderia fazer alguma coisa para mitigar esse drama social. O professor Márcio informou que estarão sendo lançados 7 cursos profissionalizantes com direito a diploma da Universidade Rural (no âmbito do IM), com início em agosto próximo e voltados para mil estudantes inscritos no CAD-Único na cidade de Nova Iguaçu, com parceria da universidade, prefeitura local e da Casa Dulce Seixas.

Ele classificou o dia da homenagem como histórico, tanto para a deputada, para a UFRRJ como para todo o Brasil, a partir da outorga do título de Dra. Honoris Causa, como também celebra o reconhecimento acadêmico da Rural da luta da deputada pelos direitos humanos e pelo protagonismo das minorias sociais e políticas, coroando um capítulo histórico em favor da Educação e da comunidade LGBTQIAPN+ no país. Segundo o diretor do IM/UFRRJ, Erika Hilton, por sua trajetória de mulher trans, negra e periférica, tornou-se referência por sua atuação incansável em defesa da cidadania, na promoção da diversidade e no enfrentamento à violência estrutural que atinge as populações vulneráveis do movimento LGBTQIAPN+, das mulheres, da população negra e periférica e dos trabalhadores, na luta pelo fim da escala de trabalho 6×1. Concluindo sua fala, o professor Márcio Borges salientou que ver uma mulher trans ocupar o topo do reconhecimento acadêmico representa um avanço civilizatório sem precedentes contra o preconceito, provando que a produção de conhecimento e a luta por dignidade também se constroem na política institucional e na defesa intransigente e inegociável da vida.

Uma informação preocupante repassada aos presentes pelo diretor do instituto dá conta que o Brasil é o primeiro país do mundo que mais mata pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.

Em seu discurso, Erika Hilton agradece pela homenagem

Emocionada, a deputada federal eleita por São Paulo agradeceu a lembrança de seu nome como alvo da homenagem. Ela recordou seus momentos difíceis na infância e adolescência, quando foi expulsa de casa, desamparada e jogada numa esquina de prostituição, retirada do convívio familiar. Ela revelou que naqueles momentos tinha a certeza de que aquele não seria o destino de seu corpo. Ela sabia que algo de positivo estava a caminho, desde que Erika reunisse forças para lutar por uma vida melhor para si e para o seu entorno. Desde muito cedo, Erika defrontou-se com um sistema social que sempre lhe disse a palavra “não”. Ou seja, que ela “não faria”, “não podia”, “não seria”, “não chegaria” e a gente insistia dizendo que “sim”, que “nós faremos”, “nós podemos”, “nós seremos” e “nós chegaríamos”. Ao receber a honraria da UFRRJ, ela disse que se sentia “vingada” pela sua própria história, pois o título de Dra. Honoris Causa é uma prova incontestável que é possível chegar aonde se quer, apesar das dificuldades impostas pela realidade da vida.

Deputada Erika Hilton sendo homenageada por fãs e admiradores

A deputada Erika destacou que a luta é árdua, mas nem por isso menos desinteressante, pois envolve a busca por um lugar de cidadania, de representação, de direitos e de dignidade, lugar esse que todos os oprimidos sabem que são merecedores.

Segundo ela, todos acreditam que esse Brasil com que nós sonhamos pode e será muito maior, pois esse país (que queremos) nunca nos foi dado e nunca será. Ele segue sendo construído todos os dias em que nos levantamos de nossa cama, saímos às ruas para trabalhar e buscar a sobrevivência. Ela conclamou a todos a lutar para dar um basta na exclusão, na violência e no ódio contra as minorias, os excluídos e marginalizados. Vozes têm ecoado porque sempre foram silenciadas e subjugadas, impedidas durante muito tempo de falar e agora os gritos se fazem ouvir por justiça, reparação, equidade e liberdade.

Deputada Erika Hilton discursando no auditório do IM/UFRRJ

A mais nova doutora Honoris Causa repudiou o fato do país continuar sendo construído de forma desigual, a partir da miséria e da exclusão social de quem é discriminado por sua condição financeira, por sua cor, por sua orientação sexual, num país que se acostumou a enxergar os excluídos sempre “de cima para baixo”.

Ela atribui essa situação de exclusão aos homens brancos, que sempre pensaram as universidades e os melhores empregos apenas para eles e seus filhos, condenando o restante da população aos guetos da marginalidade, do desemprego, do analfabetismo e da miséria.

O projeto que defende propõe a inclusão de todos e todas sem distinção nos marcos da civilização, com direitos assegurados à Educação, à Moradia, ao Trabalho, à Saúde e à emancipação, para que não haja mais fome, miséria, pobreza, desigualdade e injustiça social, para que não haja mais morte pela cor da pele, pelo tipo de cabelo, pela identidade de gênero ou pela orientação sexual. Em suma, o lema da poetisa e escritora negra Conceição Evaristo resume tudo: “Eles juraram nos matar, mas nós juramos não morrer! ”

Por Ricardo Portugal – Assessoria de Comunicação do IM/UFRRJ

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