A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP) entrou para a história da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) ao se tornar a primeira mulher negra e transexual a receber o título de Doutora Honoris Causa da instituição. A homenagem foi concedida na última sexta-feira (26), durante cerimônia realizada no Instituto Multidisciplinar, no câmpus Nova Iguaçu, em reconhecimento à sua atuação na defesa dos direitos humanos, da população LGBTQIA+, das mulheres e das classes trabalhadoras.

A concessão da honraria foi aprovada por unanimidade durante a 428ª reunião ordinária do Conselho Universitário (Consu), realizada em setembro de 2025. O reconhecimento destaca a trajetória política de Érika Hilton e sua atuação em defesa dos direitos humanos, da população LGBTQIA+ e da justiça social.
A deputada afirmou que o título representa muito mais do que um reconhecimento acadêmico. Segundo ela, a homenagem simboliza uma resposta às inúmeras violências estruturais enfrentadas ao longo de sua trajetória e reafirma a importância da luta por um país mais justo e igualitário.
“Hoje, voltar para a Universidade Federal como deputada eleita, conseguindo fazer tantas coisas que eu tenho feito, sendo uma das principais vozes na luta pelo fim da escala seis por um e receber esse título nos mostra que a gente deve acreditar, que a gente deve lutar, que a gente deve persistir e que a gente não deve abaixar nossa cabeça. Que a gente deve sim sonhar, planejar e conjecturar um mundo e um projeto de país melhor, onde as pessoas possam ter dignidade, possam ter acesso à escolaridade, à comida, à moradia, ao trabalho e todos os seus direitos assegurados. Então eu acho que isso não é só um título. Eu acho que isso é o reconhecimento de uma história”, afirmou Érika.
A cerimônia reuniu autoridades externas, autoridades acadêmicas, professores, alunos e demais membros da comunidade universitária e comunidade externa para prestigiar o título de Doutora Honoris Causa concedido, pela primeira vez, à uma mulher negra e transexual pela Universidade Rural. Durante sua homenagem, a graduanda do curso de Ciências Sociais, Ayoluwa Niara, ressaltou que o reconhecimento ultrapassa a trajetória individual da parlamentar e representa um avanço coletivo para a população trans:
“O que a gente faz aqui hoje, entregando esse título para a Érika, é deixar a trilha para que muitas outras travestis também aspirem, também sonhem, também consigam. Neste momento, estamos aqui saudando esta mulher, saudando a potência de nossos corpos, a potência da travestilidade e o que a travestilidade pode fazer dentro de espaços como esses”.
O reconhecimento às contribuições de Érika Hilton está alinhado ao perfil diverso adotado pela UFRRJ, que possui em seu corpo acadêmico a pró-reitora de Assuntos Estudantis Joyce Alves, primeira pró-reitora trans do Brasil, no cargo desde 2021. Em seu discurso, Joyce, que foi também uma das responsáveis por idealizar a proposta do título à deputada federal, destacou a importância da luta da homenageada pelas minorias sociais: “Homenagear a deputada federal Érika Hilton é celebrar uma trajetória feita de coragem, resistência e compromisso com a dignidade humana. Sua presença no Congresso Nacional não é um acaso, é o resultado de anos de luta intensa nos movimentos sociais de uma caminhada acadêmica marcada por desafios e superações e de uma vida dedicada a escutar a quem historicamente foi silenciado. Você, Érika Hilton, é um marco vivo de que a política pode sim ser um instrumento de amor, justiça e transformação profunda da sociedade”, finalizou Joyce Alves.
A presidenta da ANTRA, Bruna Benevides, também ressaltou o caráter histórico da cerimônia. Segundo ela, a homenagem representa um legado para as futuras gerações e fortalece a presença da população trans dentro das universidades brasileiras: “Hoje a gente vive o sonho das nossas ancestrais e hoje nós temos a possibilidade de nos tornarmos ancestrais das futuras gerações. Os frutos que nós vamos fazer aqui é o que tem potencial para revolucionar o Brasil, a democracia e sobretudo o que se diz sobre soberania”, pontuou Bruna.


Durante o ato de outorga do título de Doutora Honoris Causa, o vice-reitor, César Augusto Da Ros, prestou sua homenagem à Érika Hilton, reconhecendo a relevância da deputada para a gratificação: “A concessão do título de Honoris Causa por uma instituição universitária representa o reconhecimento institucional a uma pessoa que tenha se distinguido pela sua inestimável e relevante contribuição prestada para o desenvolvimento da educação, da ciência, da cultura, das artes, da filosofia ou das letras beneficiando a humanidade e o país. Esse é o tamanho do título que está sendo concedido aqui. Nesse sentido, ao empregar a concessão desse tipo à deputada Érika Hilton, o Conselho Universitário da nossa universidade está reconhecendo a sua singular trajetória e a relevante contribuição prestada à sociedade brasileira em sua luta social e política na defesa dos direitos humanos, dos direitos da população LGBTQIA+, dos direitos da população negra e das classes trabalhadoras de nosso país”.



Já outorgada como doutora pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Érika voltou a destacar o significado simbólico da homenagem. Em um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, afirmou que receber o reconhecimento representa uma vitória coletiva construída por gerações de pessoas que enfrentaram preconceitos e exclusões: “Isso é muito maior do que só o título de doutora para Érika Hilton. Isso é sobre uma coletividade ancestral, de passos, trajetórias, caminhos, jornadas que foram percorridas para que nós pudéssemos ir consolidando ao longo de todo esse tempo um lugar de cidadania. Não nos curvaremos a um país que se acostumou a nos enxergar sempre de cima para baixo. Nós não queremos mais olhar ajoelhadas, queremos olhar de pé, com título, formada, com trabalho, com moradia, com comida e com reconhecimento. Nós queremos que os políticos se preocupem mais com a miséria, com a violência e com a pobreza do que com as nossas sexualidades e com os nossos gêneros. Essa deve ser a prioridade do Brasil”, concluiu Érika.


O encerramento da solenidade ficou marcado pelo discurso do diretor do Instituto Multidisciplinar, Marcio Borges, que classificou a homenagem como um marco para a universidade e para o país. Segundo ele, conceder a mais alta honraria da instituição à primeira deputada federal negra e trans eleita na história do Brasil simboliza o reconhecimento acadêmico da luta pelos direitos humanos e do protagonismo das minorias políticas.
Também estiveram presentes na solenidade e prestaram suas homenagens à Érika Hilton a deputada estadual do Rio de Janeiro, Dani Balbi e a deputada estadual do Rio de Janeiro, Renata Souza.
Confira aqui o álbum público com mais fotos do evento.
Texto: Alan Sena, estudante de Jornalismo da UFRRJ e estagiário de Comunicação da CCS/UFRRJ.
Fotos: Michelle Carneiro, jornalista da CCS/UFRRJ.