Estudo desenvolvido por pesquisadores da UFRRJ cria tecnologia capaz de identificar fipronil em águas naturais de forma rápida, portátil e de baixo custo, contribuindo para o monitoramento ambiental e a preservação dos recursos hídricos.
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) resultou na criação de um dispositivo eletroquímico portátil e de baixo custo capaz de detectar a presença de fipronil, um inseticida amplamente utilizado na agricultura e considerado uma preocupação ambiental devido à sua persistência, toxicidade e potencial de contaminação de corpos hídricos.

O estudo foi desenvolvido no Laboratório de Nanotecnologia, Cerâmicas e Compósitos (LNanoC²), pelo grupo Nano&UFRRJ, sob coordenação do professor João Victor Nicolini, e contou com a participação da estudante de Engenharia de Materiais Mariane Ribas Lourenço, bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UFRRJ), como primeira autora do artigo. A pesquisa também envolveu o pós-doutorando Daniel Ananias Reis de Campos (Programa de Pós-Graduação em Química – PPGQ/UFRRJ) e pesquisadores do Laboratório de Engenharia de Fenômenos de Interface do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), em parceria com a professora Helen Ferraz e os pesquisadores Guilherme Sales da Rocha e Franccesca Fornasier.
O dispositivo foi desenvolvido a partir de um eletrodo serigrafado comercial, cuja superfície foi modificada com nanotubos de carbono de paredes múltiplas (MWCNTs). Essa modificação aumenta a área ativa do sensor e melhora a condução de elétrons, tornando a detecção do fipronil mais sensível e precisa.

Durante a análise, é aplicada uma variação de potencial elétrico ao sensor. Quando o fipronil está presente na amostra, ocorre uma reação eletroquímica que gera uma corrente elétrica proporcional à concentração do contaminante. O sinal é registrado por um equipamento chamado potenciostato, permitindo identificar e quantificar o inseticida de forma rápida e eficiente.
Um dos principais diferenciais do trabalho foi a validação do sensor em amostras reais de água do Rio Guandu. Os resultados demonstraram que o dispositivo é capaz de identificar e quantificar o fipronil mesmo na presença de outros componentes naturais da água, sem interferir na medição.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia representa uma alternativa às técnicas convencionais de análise, como a cromatografia, que normalmente exigem equipamentos de alto custo, infraestrutura laboratorial especializada e maior tempo para obtenção dos resultados. A proposta é facilitar análises rápidas e descentralizadas, possibilitando o monitoramento da qualidade da água diretamente no local de coleta.
É importante destacar que o sensor não remove o contaminante da água. Sua função é detectar e quantificar a presença do fipronil, fornecendo informações que podem subsidiar ações de fiscalização, gestão ambiental e tomada de decisão por órgãos responsáveis pela proteção dos recursos hídricos.
Além da aplicação prática, a pesquisa apresenta avanços científicos relevantes. De acordo com os autores, ainda não havia sido descrito um eletrodo serigrafado modificado com nanotubos de carbono de paredes múltiplas especificamente validado para a detecção de fipronil em amostras ambientais reais de água.
A modificação desenvolvida pelos pesquisadores mostrou-se simples, reprodutível e eficiente, aumentando a área eletroativa do sensor, melhorando a transferência de elétrons e intensificando o sinal eletroquímico associado ao inseticida.
A tecnologia poderá contribuir para ampliar o monitoramento ambiental de pesticidas, permitindo a identificação precoce de episódios de contaminação e fortalecendo estratégias voltadas à proteção da saúde pública e dos ecossistemas aquáticos.
O trabalho também evidencia a importância da iniciação científica na formação de novos pesquisadores. Primeira autora do artigo, a estudante Mariane Ribas Lourenço participou de todas as etapas do projeto, desde o levantamento bibliográfico até o planejamento e a execução dos experimentos.
“Ao longo do trabalho, acompanhei o cronograma experimental, realizei pesquisas bibliográficas e participei do planejamento e da execução dos ensaios. Também propus alguns testes com base em artigos científicos consultados e em conhecimentos adquiridos durante a participação em congressos, sempre discutindo previamente as ideias com o meu orientador. Foi uma experiência muito importante para a minha formação. Gostei especialmente de acompanhar as diferentes etapas da pesquisa e de procurar soluções para os desafios que surgiram durante o desenvolvimento do projeto. Essas dificuldades aumentaram o meu interesse pela investigação científica e contribuíram para o meu crescimento acadêmico”, relata a estudante.
Para o professor João Victor Nicolini, a atuação da aluna foi fundamental para o sucesso e publicação da pesquisa.

O artigo científico completo está disponível no link abaixo. A publicação apresenta em detalhes a metodologia utilizada, os resultados obtidos e as perspectivas de aplicação da tecnologia no monitoramento ambiental.
Ribas Lourenço, M., Sales da Rocha, G., Ananias Reis de Campos, D. et al. Multi-walled carbon nanotube-modified screen-printed sensor for ultrasensitive fipronil determination in river water. J Solid State Electrochem (2026). https://doi.org/10.1007/s10008-026-06644-7
Texto: Laís Veiga, bolsista de Jornalismo da CCS/PROPPGI.
Imagens: Arquivo pessoal do professor.