O Laboratório de Lógica Computacional e Fabricação Digital (Logifab), do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ, prova que tecnologia de ponta não precisa custar uma fortuna — e que montar uma estrutura junto com desconhecidos pode ser mais divertido do que parece.
Imagine explicar para alguém que você passa os dias projetando estruturas em computador, cortando madeira com raios laser e depois arrumando centenas de pecinhas em um kit, tudo para ser montado em outra universidade — e que isso é pesquisa científica séria. Difícil de acreditar? É exatamente o que o professor Juarez Franco e os estudantes do Logifab (Laboratório de Lógica Computacional e Fabricação Digital) fazem com orgulho na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
O objeto de tanta dedicação tem nome: Pavilhão Oca. Homenagem às habitações dos povos originários brasileiros, a Oca é uma estrutura leve, temporária e lindamente complicada de explicar em poucas palavras. Resumindo: são barras de MDF cortadas a laser, encaixadas em nós articulados que se adaptam automaticamente ao ângulo de cada encontro, formando uma espécie de casulo espacial tridimensional.

Tudo gerado por algoritmos paramétricos implementados em Grasshopper e Python, sem uma planta baixa convencional à vista. Mas por que fazer algo assim numa instituição pública em Seropédica, longe dos grandes centros de pesquisa? A resposta está na missão do Logifab: democratizar o acesso à modelagem paramétrica e à fabricação digital numa região onde o Índice de Desenvolvimento Humano mal chega a 0,75.
Se as grandes universidades do eixo Rio-São Paulo já fazem pavilhões inovadores com orçamentos generosos, alguém precisa provar que dá para fazer o mesmo, com um laboratório que custou o equivalente à metade do preço de um carro popular para ser implementado. E foi exatamente isso que o grupo fez.

De 3 m² para 16 m²: uma jornada de erros muito bem documentados
A primeira Oca, em 2023, cabia literalmente um estudante dentro. Com 3 m² e formato semiesférico, ela foi carinhosamente testada em ensaio destrutivo — os alunos encheram um recipiente d’água até a estrutura ceder, como verdadeiros engenheiros. A conclusão? As ligações eram o ponto fraco. Redesenhadas com um pequeno ajuste geométrico, a resistência do sistema quintuplicou. Ciência na prática.
Em 2024, uma nova lição apareceu durante uma montagem em escola pública: ângulos muito agudos entre as barras travaram a montagem por completo e o material foi perdido. Solução? Uma nova restrição no código — nenhum ângulo inferior a 45°. O próprio programa passou a avisar quando alguém tentasse fazer algo impossível.
Também em 2024, a equipe descobriu que o MDF tem memória. Sob torção sustentada, o material vai cedendo aos poucos — fenômeno chamado de fluência — até que, 13 dias depois da montagem, a estrutura simplesmente desabou. Nenhum drama: a equipe já estava monitorando, anotou tudo e transformou o colapso numa restrição de projeto para 2025.
2025: a Oca sai de casa
Com 16 m² de área útil, a versão 2025 finalmente comporta de 12 a 15 pessoas ao mesmo tempo. E ela saiu dos domínios da UFRRJ para o mundo: foi montada na UFF, na PUC-Rio, na FAU/UFRJ, na Escola Politécnica da UFRJ e em eventos de divulgação científica promovidos pela UFRRJ e pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Em cada parada, estudantes de Arquitetura da UFRRJ atuaram como monitores, ensinando o passo a passo da montagem colaborativa para secundaristas e universitários de outras instituições.
Os tempos de montagem variam entre 2 e 5 horas — dependendo da experiência do grupo. Em alguns casos, equipes mistas de duas universidades colaboraram sem nunca ter se visto antes. Isso tem um nome bonito em extensão universitária: engajamento comunitário. Mas na prática é simplesmente muito divertido.
O segredo da Oca: ninguém precisa ler planta baixa
Um dos objetivos centrais do projeto é que qualquer pessoa consiga montar a estrutura sem documentação técnica convencional. Sem plantas. Sem elevações. Sem cortes. O protocolo de montagem foi desenvolvido para favorecer a autoorganização: cada peça diz, pela sua própria geometria, onde deve ir. O pavilhão é, em si, um manual de instruções tridimensional.


Essa decisão tem impacto pedagógico direto. Dados coletados pela equipe mostram que a participação na montagem está correlacionada com o aumento na procura por cursos de modelagem paramétrica. Em outras palavras: quem monta a Oca, quer entender como ela foi feita. E aí o ciclo recomeça.
O próximo capítulo
O Logifab não para. Os planos para os próximos ciclos incluem integrar impressão 3D ao processo, considerar o entorno urbano ou rural como condicionante do projeto e atribuir funções práticas às estruturas — como suporte a ações de extensão em escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro.
A Oca já passou pela UFRRJ, pela UFF, pela PUC, pela UFRJ e pelas ruas do Rio. Quem sabe onde vai parar a seguir?
O Pavilhão Oca é uma ação de extensão do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ, desenvolvida pelo LOGIFAB com apoio da FAPERJ. Os protagonistas são os estudantes — na concepção, na fabricação e na montagem.
Texto e fotos: coordenação do Logifab