
Se a Universidade Rural pudesse contar suas histórias a um querido interlocutor, ela certamente voltaria a reminiscências de quarenta anos atrás para falar daqueles quatro homenageados da tarde de 9 de junho de 2026, no Auditório Gustavo Dutra, câmpus Seropédica. A Rural lembraria de uma noite em 1981, quando três deles se apresentaram pela primeira vez num festival de música na Sala de Estudos – naquele instante, nem ela e nem eles poderiam imaginar que ali estava sendo lançada a semente de uma das bandas de rock mais influentes do país. Já o outro dos laureados, um filho de Seropédica, ainda faria a Universidade pensar em recordações um pouco mais antigas, fazendo-a narrar, quem sabe, os tempos em que aquele garoto circulava maravilhado por seus corredores – sem nem sonhar que, no futuro, receberia a mais alta honraria da instituição.
Claro que não estamos numa fábula, e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) não tem o dom da palavra. Mas as pessoas que constroem cotidianamente sua história, sim. Além de falar, elas cantam, gritam, aplaudem e dançam. E foi isso que fez o público que lotou o Gustavão para prestar reverência aos homenageados: Os Paralamas do Sucesso. Numa de suas mais históricas sessões solenes, o Conselho Universitário (Consu) concedeu o título de Doutor Honoris Causa a Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone – trio fundador da banda – além de João Fera, tecladista que os acompanha desde 1987. É a primeira vez que uma universidade brasileira concede esse título aos músicos do grupo.
“É uma alegria e honra sem tamanho estar vivendo esta cerimônia, além da emoção que vem de cada segundo de minhas lembranças”, disse Herbert Vianna em seu discurso após a outorga dos títulos.
Para Bi Ribeiro, que ingressou no curso de Zootecnia na Rural em 1979, a ligação com a Universidade foi decisiva para a existência do conjunto:
“Os Paralamas não seriam os Paralamas se não fosse a Rural”, afirmou o baixista. “Um colega daqui me apresentou o Barone, que tocou com a gente pela primeira vez no Festival de Música na Sala de Estudos. A partir daí, conhecemos o João Fera, um filho da comunidade. E até hoje minha família está aqui. Minha mãe [Luciana Nóbrega], professora e integrante da Adur [Associação dos Docentes da UFRRJ]; minha irmã, que fez Agronomia; o filho dela, que cursou História… A gente é muito grato à Rural”. (E a Rural também mostrou sua gratidão à mãe do Bi, que acompanhava a cerimônia, entregando-lhe um buquê de flores).








“Ai, ai, ai… O coração está na boca! Vocês estão certos mesmo em nos dar esse título? Estou me beliscando até agora!”, brincou João Barone em sua fala. Também ex-aluno (matriculou-se em Biologia no ano de 1982), o baterista fechou seu discurso com um lema comum a todos ruralinos: “Você pode deixar a Rural, mas ela não deixa você”.
Muito aplaudido, o filho da terra, João Fera, trouxe emoções impregnadas de UFRRJ: disse que seu batismo foi numa capela no Pavilhão Central; falou de suas andanças pelo câmpus, transportando roupas de estudantes para a mãe lavadeira; lembrou das aulas de violão para a comunidade e as participações em apresentações musicais no Gustavão… “Muitas histórias”, resumiu. “Eu via a imponência desta Universidade e jamais poderia imaginar que estaria aqui hoje, neste palco, recebendo este título e vestindo esta beca”, disse o músico.
Proposta em setembro de 2025 pela Pró-Reitoria de Extensão (Proext), por meio de seu Departamento de Arte e Cultura, a recomendação para a outorga do título de Doutor Honoris Causa aos integrantes dos Paralamas foi aprovada pelo Consu em 26 de março deste ano.
Em seu pedido, a Proext destacou “o reconhecimento público da contribuição e dos méritos que Felipe de Nóbrega Ribeiro (Bi Ribeiro), Herbert Lemos de Souza Vianna (Herbert Vianna), João Alberto Barone Reis e Silva (João Barone) e João Carlos Gonçalves (João Fera) têm na cena musical ao longo de seus 40 anos de intensa e expressiva atuação”. A homenagem, segundo a Pró-Reitoria, ainda sublinha “a importância que o espaço universitário possui como ambiente de manifestação da arte e da cultura popular”.
A ligação da banda com a cidade e com a Rural também foi ressaltada, a partir da participação do grupo no Festival de Música realizado em 1981 na Sala de Estudos, área dos alojamentos estudantis do câmpus Seropédica. Na ocasião, as músicas inscritas pelo grupo não foram classificadas. Contudo, o baixista Bi Ribeiro conseguiu uma brecha para que eles tocassem depois das apresentações principais. A ausência do baterista original, Vital Dias, motivou uma solução de emergência, com um colega do Bi indicando um baterista local: João Barone, morador do km 47 desde a infância.
“O que ficou mais forte na memória foi a reação da plateia. Parecia que nossa apresentação surpresa havia animado bem os presentes. […] Herbert e Bi ficaram empolgados e me felicitaram muito. Herbert foi bem direto e pediu para que tocássemos alguma hora outra vez”, contou João Barone em seu livro “1,2,3,4! Contando o tempo com Os Paralamas do Sucesso” (Ed. Máquina de Livros, 2024).
Em sua participação na cerimônia, a pró-reitora Maria Ivone Barbosa indicou que o título atual era, de algum modo, uma “reparação histórica, com 40 anos de atraso”.
“Naquele início dos anos 80, o festival rejeitou suas canções. Mas, agora, a Universidade registra neste diploma o que o Brasil já reconhece há décadas. Recebam a gratidão de uma região e de toda a comunidade acadêmica”, disse a pró-reitora, autora da sugestão do título, ao lado da chefe do Departamento de Arte e Cultura, Camila Eller Gomes.
Poucas bandas consagradas têm uma relação tão próxima com uma região que não é um grande centro urbano do país. Depois daquele primeiro show, outras aparições ficaram marcadas em sua história. Houve uma segunda na UFRRJ, durante o Dia Internacional da Mulher, no início de 1983, além da lendária apresentação no bar Shopsteak, no Km 49 — cujo nome batizou uma música instrumental do primeiro álbum “Cinema mudo”.
Viriam outros retornos a essa origem seropedicense, reforçando os laços e o carinho mútuos com a cidade e a Rural, mesmo depois de alcançarem o sucesso no Brasil, na América Latina e no mundo.
Habituado a registrar os shows com os Paralamas desde 1987, João Fera nos contou que sete deles foram em Seropédica: 23/6/1988 – Clube Social (beneficente); 9/11/1989 – Clube Social; 11/10/1998 – Expo Seropédica; 11/10/2000 – Exposição Agropecuária; 23/7/2005 – 19ª Expo Zootecnia; 12/10/2010 – Centenário da UFRRJ; e 13/10/2018 – Expo Seropédica. Sem contar três apresentações na vizinha Itaguaí: 2/7/1994 – Expo; 9/11/1999 – Beer Time (casa de shows); e 5/7/2005 – Expo.
Como costuma ser, a solenidade de 9 de junho cumpriu todos os requisitos formais. Além dos homenageados – devidamente trajados com a beca doutoral – a mesa foi composta por representantes da Administração Central: o reitor Roberto Rodrigues, que entregou o título; o vice-reitor César Da Ros; a pró-reitora de Extensão Maria Ivone Barbosa; e a chefe do Departamento de Arte e Cultura, Camila Eller Gomes.
Mas aquela sessão talvez passe para a história como a mais musical e eletrificada da centenária UFRRJ.



Passados os ritos protocolares, a banda Fora do Lattes, formada por professores da Rural, empolgou a plateia tocando três músicas d’Os Paralamas (“Aonde quer que eu vá”, “Romance Ideal” e “Meu erro”).
E para fechar a tarde memorável, Herbert, Bi, Barone e Fera atenderam aos pedidos da audiência e do próprio reitor para uma “canja” histórica, pela primeira vez no palco do Gustavão. O descontraído Barone brincou no microfone: “Agora, com vocês, os ‘Doutores do Sucesso’!”. Na sequência, com beca e tudo, Os Paralamas tocaram “Caleidoscópio”, “Você” (clássico de Tim Maia abraçado pela banda desde os anos 80) e “La Bella Luna”.
Cantando, dançando e aplaudindo de pé, a comunidade acadêmica se despedia daquela sessão, saudando os novos doutores. E, assim como o Barone, muitos ainda ficaram se beliscando para ver se não era sonho.
Depois da cerimônia, a Coordenadoria de Comunicação Social (CCS/UFRRJ) fez uma entrevista exclusiva com Bi Ribeiro, Barone e João Fera, que manifestaram sua impressões sobre a homenagem recebida
João Barone
Passou muita coisa pela cabeça. Além do fato de eu ter morado aqui, e o João Fera também (e foi uma emoção ter visto ele receber esse título também)… Os Paralamas se conheceram aqui. Minha criação foi toda aqui. A Universidade Rural foi nossa casa. Um lugar idílico, uma qualidade de vida que ninguém imaginava. A gente vivia num lugar muito especial e teve um privilégio de ter essa vivência. Muito emocionante receber esse título de uma universidade que tem toda essa tradição, um lugar sempre voltado para reafirmar o Brasil e nossa qualidade científica.
E a cerimônia foi excelente. Não esperávamos que ia ter tanta gente. Cada um de nós falou de certo improviso, mas eu preparei um discursinho, pra não deixar barato (risos). Já que me chamaram, vão ter de ouvir, vão ter de me aturar! (risos). Fiz também umas brincadeiras para quebrar o gelo porque a gente estava com o coração na boca, como eu falei, né? Aí fiz a parte mais sensível do discurso, dedicando a meus pais que vieram pra cá nos anos 50, quando não tinha nem árvores na rua. Meu pai era funcionário público e morávamos no Grajaú. Viemos pra cá com a promessa de ser um local todo especial. Era um privilégio morar aqui.
Bi Ribeiro
Receber esse título foi uma coisa única, uma coisa que a gente nunca imaginou que pudesse acontecer. Mas tem tudo a ver porque a gente é filho da Rural. Se não fosse a Rural a gente não estaria aqui. Foi aqui que conhecemos o João [Barone] e, através dele, o João Fera. Aqui fizemos os primeiros shows. Então, é uma coisa que é autêntica. Foi sensacional.
João Fera
Não tem como resumir isso. Cara… só dizer que é inacreditável. Inacreditável o que eu vivi hoje aqui. É uma vida. Recebi não só como o João Fera tecladista, porque minha vida aqui vem de muito antes.
Clique aqui para ver um álbum público com mais fotos da cermônia.
Reportagem: João Henrique Oliveira (CCS/UFRRJ)
Fotografias: Miriam Braz e Fernanda Barbosa (CCS/UFRRJ)