Utilizar a biomassa vegetal como adubo, sem a necessidade de compostagem prévia, é o principal diferencial da verdeponia (ou greenponics, em inglês). Desenvolvida por pesquisadores do setor de Fitotecnia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a técnica utiliza materiais abundantes, tais como aparas de gramas ou podas de árvores, e já se mostrou viável para produção de tomate, pimentão, pimenta cambuci, couve-folha, quiabo e mudas de alface.
“Usar a biomassa vegetal não compostada como substrato e fonte de nutrientes nos cultivos feitos em vasos, bandejas de mudas e no solo é uma inovação, pois o paradigma corrente estabelece a necessidade de compostagem e estabilização para que a biomassa vegetal seja usada como adubo na agricultura”, explica Evandro Francisco Ferreira da Silva Souza, doutor em Ciência, Tecnologia e Inovação em Agropecuária pela UFRRJ.
A verdeponia foi desenvolvida ao longo do mestrado e doutorado de Evandro, sob orientação de Leonardo Duarte Batista da Silva, professor do Departamento de Engenharia da UFRRJ, e coorientação de Leonardo Oliveira Medici, docente do Departamento de Ciências Fisiológicas da UFRRJ, e de José Guilherme Marinho Guerra, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa – Agrobiologia).
A técnica tem potencial para se consolidar como alternativa mais econômica para o cultivo, uma vez que representa economia de trabalho e de tempo para obtenção de adubos. “A biomassa de plantas é mais abundante e fácil de obter do que composto ou esterco. Nos primeiros cultivos em verdeponia, utilizamos as aparas de grama batatais (Paspalum notatum) coletadas no câmpus da UFRRJ em Seropédica. Esses gramados crescem há décadas sem irrigação ou adubação e geralmente as aparas não são aproveitadas, sendo deixadas no campo para incorporação no solo”, explica o pesquisador Evandro Souza.
Além da economia, a técnica também busca aumentar a fertilidade e a matéria orgânica de forma localizada nos berços ou sulcos de cultivo, com adubações sucessivas sempre nos mesmos pontos e não em toda a área de cultivo. “Ela se diferencia das técnicas de adubação verde, pois na verdeponia a biomassa é enterrada de forma localizada nos berços ou sulcos. A área do entorno desses sulcos e berços pode ser deixada com cobertura perene que ainda servirá como fonte de biomassa para os cultivos”, detalha o professor Leonardo Medici.
Passo a passo da pesquisa
O pesquisador Evandro Souza relata que, em 2017, no Setor de Horticultura da UFRRJ, em casa de vegetação, foi realizado um teste piloto com o tomate em vasos preenchidos com aparas de grama batatais coletadas no câmpus. Em 2018, foi conduzido o primeiro ensaio, em casa de vegetação, com o tomate cereja. Outros ensaios foram conduzidos com o pimentão, tomate salada e a alface, e os resultados obtidos nos vasos motivaram os experimentos no campo.
Já o primeiro ensaio de campo foi realizado com a couve-folha no Sistema Integrado de Produção Agroecológica (SIPA), conhecido como Fazendinha Agroecológica Km 47, no ano de 2022. “Diversos experimentos em verdeponia foram conduzidos na gleba 19 com a couve-folha, pimenta cambuci e o quiabo Santa Cruz 47. Experimentos em verdeponia no campo com o tomate Dominador também foram conduzidos no Instituto de Tecnologia da UFRRJ, no qual também vem sendo realizados experimentos de produção de mudas em bandejas. Novos estudos deverão ser conduzidos com doses maiores de biomassa nos vasos, berços ou sulcos e/ou complemento dessa adubação com outros compostos como torta de mamona, gesso e termofosfatos”, conclui Evandro Souza.
São líderes da pesquisa na UFRRJ: Leonardo Oliveira Medici; Leonardo Duarte Batista da Silva; e Daniel Fonseca de Carvalho. A pesquisa é desenvolvida em parceria com pesquisadores da Universidade de Maragheh (Irã), da Embrapa – Agrobiologia e do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).
Integram o grupo de pesquisa: Evandro Francisco Ferreira da Silva Souza; José Guilherme Marinho Guerra; Gabriel Alves Botelho de Mello; Jhonatan Marins Goulart; Jacqueline Gonçalves dos Anjos de Melo; Mohammad Bagher Hassanpouraghdam; Marcello Antonio Duarte Gentile; Michel Douglas Santos Ribeiro; Cesar Gaudêncio da Silva; João Victor Oliveira Spyere; Raquel Martins Pereira; Erick Cordeiro dos Santos Silva; Maria Luisa Martins da Silva; Edinaldo Franco Mendes; Karine de Barros Silva e Luciano Santos de Souza Neves.
Para mais informações, leia os artigos científicos:
Tomate cereja: https://doi.org/10.1080/01448765.2021.1966506
Tomate salada: https://doi.org/10.1080/01448765.2025.2536294
Acompanhe as ações do grupo de pesquisa no Instagram: @verdeponia_ufrrj
Por Michelle Carneiro, CCS/UFRRJ.