Estudo recém-publicado consolida 30 anos de pesquisas realizadas na Fazendinha Agroecológica Km 47, reunindo esforços de dezenas de cientistas para impulsionar a transição ecológica no campo.

Em um cenário global que exige soluções agrícolas cada vez mais sustentáveis e inovadoras, uma árvore nativa da América Central tem se mostrado uma poderosa aliada, a gliricídia (Gliricidia sepium). Capaz de sequestrar carbono e fixar nitrogênio no solo, a planta é o objeto de pesquisa do trabalho que sintetiza três décadas de estudos e experimentos do Sistema Integrado de Produção Agroecológica (SIPA) conhecido como Fazendinha Agroecológica Km 47, localizada na Baixada Fluminense, fruto de uma parceria interinstitucional formada pelo Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Agrobiologia, a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (PESAGRO-RIO) e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
A contribuição da UFRRJ foi central para a estruturação do documento. O texto compila uma série histórica de trabalhos acadêmicos, incluindo dissertações, teses e artigos científicos produzidos por discentes e docentes da instituição entre 2008 e 2024.

Inovação e múltiplos usos na lavoura
A gliricídia se destaca por sua capacidade de realizar a fixação biológica de nitrogênio atmosférico, transferindo esse nutriente essencial para o solo e reduzindo a dependência de fertilizantes externos. Ao longo dos anos, os pesquisadores documentaram diversas inovações práticas para o uso da planta:
- – Verdeponia: Um sistema de cultivo onde a fitomassa da gliricídia (folhas e galhos triturados) não compostada é utilizada diretamente nas covas como substrato e fonte de nutrientes. Em testes de campo, o método demonstrou alta produtividade em culturas como a couve-de-folha;
- – Controle biológico: A árvore atrai naturalmente o pulgão preto, inseto que não prejudica seu desenvolvimento, mas serve de alimento para joaninhas. A presença contínua dessas joaninhas na área ajuda a combater outras pragas que atacam as hortaliças cultivadas nas proximidades.

- – Mourões e tutores vivos: Seus galhos podem ser fincados no solo para formar cercas vivas e dar suporte a plantas trepadeiras, como a pimenta-do-reino. Essa técnica substitui os tradicionais mourões de eucalipto tratados com metais pesados e reduz os custos de implantação para o agricultor.

- – Fertilizantes e compostos orgânicos: A fitomassa da espécie também pode ser processada para a criação de fertilizantes secos, usada como cobertura morta no solo ou integrada à produção de adubos fermentados do tipo “bokashi”.

A equipe e a infraestrutura científica
O documento é fruto de um trabalho em rede que une diferentes gerações da academia. A coordenação foi realizada por Evandro Francisco Ferreira da Silva Souza, pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Agropecuária (PPGCTIA) da UFRRJ, sob supervisão do professor Leonardo Duarte Batista da Silva.
O grupo de autores conta ainda com os docentes da UFRRJ Leonardo Oliveira Medici e Daniel Fonseca de Carvalho; os pesquisadores da Embrapa Agrobiologia Ednaldo da Silva Araújo e José Guilherme Marinho Guerra; o pesquisador do Incaper Jhonatan Marins Goulart; o consultor autônomo Gabriel Alves Botelho de Mello; além da graduanda em Agronomia Karina de Jesus Costa Silva e do egresso de Ciências Agrícolas Thiago Martins Nunes.
Para a realização das análises ao longo dos anos, a pesquisa mobilizou uma ampla infraestrutura, incluindo o Laboratório da Fazendinha Agroecológica Km 47 e os laboratórios de Agricultura Orgânica e Química Agrícola da Embrapa. O trabalho também integrou cinco programas de pós-graduação da UFRRJ: PPGCTIA, Fitotecnia (PPGF), Agronomia – Ciência do Solo (PPGA-CS), Agricultura Orgânica (PPGAO) e Engenharia Agrícola e Ambiental (PGEAAmb).
Para acessar a pesquisa completa basta clicar aqui.
Texto: João Vitor Freitas, jornalista e bolsista de Comunicação da Prograd/CCS


