No início do mês, o professor Peter May, do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), foi reconhecido pela Agência Bori como um dos 107 cientistas brasileiros que mais impactam no mundo. Mas esse reconhecimento vai além de uma conquista pessoal. Especialista na área da Economia Ecológica, Peter é referência quanto ao pensamento dos limites a serem estabelecidos no contexto de crescimento econômico num planeta finito.
A Agência Bori é um projeto que visa aproximar a ciência do jornalismo e da sociedade. Criada para qualificar a divulgação científica no país, a Bori atua identificando pesquisas, cientistas e evidências relevantes para basear debates públicos. Além disso, a plataforma oferece pautas, entrevistas e materiais para jornalistas, como o que reconheceu os cientistas brasileiros mais influentes do mundo.
No levantamento, a Agência Bori identificou os 107 pesquisadores brasileiros com pelo menos 150 citações em documentos estratégicos, relatórios técnicos e pareceres usados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil publicados de 2019 a julho de 2025. O estudo foi realizado em parceria com a base de dados internacional Overton (clique aqui para saber mais).
Segundo a Bori, a maior parte dos pesquisadores atua em temas relacionados a Ecossistemas e Uso da Terra: 35% da lista se destacam por estudos fundamentais para a relevância do Brasil no debate ambiental global.
Surpreso com o reconhecimento da Bori, Peter recebeu a notícia com humor e humildade:
“Realmente foi uma grande surpresa ser reconhecido dessa forma. Olhei a lista e vi vários colegas que respeito muito, inclusive outros dois economistas ecológicos que são gringos. Gringos bem brasileirizados, né? Quanto ao pessoal que trabalha com meio ambiente que está na lista, são os figurões em níveis acima, pessoas bem mais importantes que a gente. Mas acho que temos que aproveitar, comemorar pela premiação e indicação, e agradecer, mas não ficar pensando que sou o máximo e que agora vou precisar descansar”.
O professor também disse que é necessário manter a constância do trabalho e destacou a importância de plataformas como a Agência Bori:
“Tem que continuar (o trabalho) e dar mais ênfase nas coisas que são mais importantes e, na medida do possível, participar desses debates juntos aos políticos, ONGs e ter esse tipo de envolvimento. É necessário fazer mais”.
Peter, que não conhecia a Agência Bori, acredita que o trabalho que eles desenvolvem é muito importante:
“Nestas décadas, tem surgido cada vez mais a percepção de que há necessidade de debates entre a ciência e a política”.
Fundador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (Ecoeco), Peter May ajudou a consolidar, no Brasil, uma área de pesquisa transdisciplinar, que envolve estudiosos de diversas áreas, como as ciências naturais, sociais e aplicadas:
“A Economia Ecológica não é exatamente uma ciência econômica; ela utiliza conceitos da economia. Então, pensamos que há a necessidade de trazer várias disciplinas, de forma conjugada, focando nos limites que a natureza coloca para a expansão na escala da economia, dentro de um sistema espremido. Então, isso implica em aceitar certas heresias que a economia neoclássica simplesmente não aceita, que é a ideia de limites. Não há limites para o crescimento na economia neoclássica, pode produzir à vontade, até explodir o planeta”.
Peter afirma que até existe um movimento – principalmente por países europeus – de controlar o crescimento desordenado, mas destaca que a lógica dominante na maioria dos países ainda é a priorizar a economia, pautada pelo aumento do PIB:
“O crescimento desenfreado precisa ser equilibrado com outros objetivos. A maioria dos países gostaria de crescer desenfreadamente porque, para eles, o PIB é um indicador de sucesso. Os países da Europa estão adotando uma perspectiva de que precisam repensar a expansão. Obviamente não são todos, mas é mais forte na Europa do que nos Estados Unidos, que não está nem aí”.
Em relação à postura do Brasil frente aos desafios da preservação ambiental e das mudanças climáticas, Peter refletiu sobre o desejo do governo e citou a COP 30, conferência que foi realizada em Belém, no Pará:
“Tem muita vontade por parte do governo do Brasil em ajudar, mas é sempre uma complexidade e dificuldade muito grande. Sempre que tem um encontro dessa natureza (COP 30) se esbarra na dificuldade de assegurar reduções necessárias, como das emissões de gases de efeito estufa”.
Além disso, o professor acrescentou que o Brasil “está bem” nesse contexto, e destacou os desafios na transição energética para o país:
“O Brasil está bem, mas está olhando para alternativas de combustíveis fósseis, biocombustíveis e também para a hidreletricidade. A mais importante fonte de energia do Brasil, de longe, vem de hidreletricidade”.
Para o futuro, Peter também visa novos rumos para a Economia Ecológica. Segundo ele, o futuro passa pela consolidação de uma macroeconomia ecológica, capaz de dialogar com o pensamento sobre desenvolvimento.
“O que está surgindo agora é uma perspectiva de que não se deveria analisar a economia ecológica a situações micro, mas que deveríamos abordar a macroeconomia ecológica. Talvez com interfaces com as teorias de Celso Furtado. Então, acho que essa tendência é super importante”.
Texto: Matheus Gomes (estagiário de Comunicação do CPDA/UFRRJ)
Imagem: divulgação CPDA/UFRRJ
Revisão e edição: João Henrique Oliveira (CCS/UFRRJ)