Baseado nas pesquisas do professor do Departamento de História, Álvaro Pereira do Nascimento, “João Cândido: Um Herói Sem Máscara” estreou semana passada.
Um novo passo para a valorização da história negra do país foi dado no último dia 14. Um dia após a data que marca o fim legal da escravidão no Brasil, aconteceu a sessão de estreia de “João Cândido: Um Herói Sem Máscara”, documentário produzido com base nas pesquisas do professor Álvaro Pereira do Nascimento, do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
A produção da Cultne TV retrata a história de João Cândido, marinheiro filho de escravizados responsável por liderar o movimento histórico conhecido como Revolta da Chibata, ocorrido em 1910, e teve sua primeira exibição no Museu de Arte Moderna (MAM), em um evento que reuniu autoridades do governo federal, representantes da comunidade acadêmica e demais convidados.
Ao longo de aproximadamente, um ano, historiadores, representantes de movimentos sociais, figuras políticas e familiares de João Cândido foram entrevistados para compor uma narrativa que valorizasse a memória do Almirante Negro, como é conhecido o protagonista. O movimento é lembrado como um dos maiores atos de resistência contra a opressão da história nacional. Pesquisador desse evento histórico há mais de 30 anos, o professor Álvaro é o autor da pesquisa “João Cândido: Mestre de Sala dos Mares”, monografia publicada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) que serviu de base da produção do documentário, além de também assinar o roteiro do longa-metragem.
O documentário não se limita a abordar os dias de revolta ocorridos em novembro de 1910. Na verdade, seu foco está mais direcionado à perseguição e às injustiças sofridas pelos marinheiros após o fim da revolução.
De acordo com o docente, a expectativa é de que o filme contribua para renovar o interesse do público geral pela história de João Cândido e da Revolta da Chibata, para que seus ideais não sejam esquecidos. “O aspecto mais relevante da produção desse documentário sobre João Cândido e a Revolta da Chibata, está fundamentalmente na reabilitação da dignidade da imagem de João Cândido e da sua luta”, explica.
O professor complementa: “João Cândido simboliza a experiência do homem negro no período pós-abolição. Ao longo de sua trajetória, ele busca meios de sustento e vivência no contexto militar. Sua postura crítica e reivindicatória o estabelece como líder na Revolta da Chibata, evento que o sujeita à perseguição e a tentativas de desmoralização, com consequências significativas”.
Ocorrida no Rio de Janeiro, a Revolta da Chibata foi a revolução organizada por marinheiros da Marinha do Brasil em protesto contra severos castigos físicos aplicados contra militares de baixa patente, em sua maioria negros e pobres. Lideraos por João Cândido, os revoltosos assumiram o controle de importantes navios de guerra e ameaçaram bombardear a capital federal caso suas reivindicações não fossem atendidas. O governo prometeu abolir os castigos corporais e conceder anistia aos participantes, levando ao fim da revolta, mas posteriormente muitos marinheiros foram perseguidos, presos ou mortos. Dessa forma, o episódio tornou-se um marco da luta contra a violência, o racismo e as desigualdades dentro das Forças Armadas brasileiras.
Cândido terminou a vida longe da Marinha e do reconhecimento oficial. Após liderar a Revolta da Chibata, foi preso, perseguido e expulso da corporação, apesar da anistia prometida pelo governo. Nos anos seguintes, trabalhou em atividades informais, como vendedor de peixes no Mercado Municipal do Rio de Janeiro. Ele morreu em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos, no Rio de Janeiro. Décadas depois, sua trajetória passou a ser reconhecida como símbolo da luta contra a violência e o racismo nas Forças Armadas brasileiras.
Como parte do projeto de reparação histórica “Direito à Memória: João Cândido, o Almirante Negro”, o documentário recebeu apoio da assessoria de Defesa da Democracia, Memória e Verdade (ADMV), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e também da UFRRJ, que contaram com representantes no evento de estreia oficial do filme. Da mesma forma, filho e netos marcaram presença para prestigiar a obra e o legado do patriarca.
Um dos planos futuros do projeto visa a inclusão do nome João Cândido no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, obra que reverencia figuras importantes na construção da identidade nacional. Além disso, há perspectiva para a exibição do documentário em salas de cinema e lançamento em plataformas de streaming.
Texto: João Pedro de Moraes, estagiário da CCS/UFRRJ