Falecido em 2012, professor André Calixto (Geologia) realizou pesquisas pioneiras no Maciço do Mendanha 

Um valioso acervo composto por amostras de rochas, livros, mapas e anotações de aula acaba de chegar ao Museu de Rochas e Minerais (MRM/UFRRJ). A coleção pertencia ao ex-professor da UFRRJ André Calixto, falecido em 2012. O docente é uma referência na Geologia e se destaca por suas pesquisas, nos anos 1970 e 1980, no Maciço do Mendanha, localizado na Zona Oeste e na Baixada Fluminense. O material foi entregue por Caroline Calixto, viúva do pesquisador.

A curadora do MRM/UFRRJ Soraya Almeida (ao centro) e o estagiário Victor Knup recebem a doação de Caroline Calixto (Foto: divulgação MRM)

De acordo com Soraya Almeida, professora de Geologia e curadora do MRM, o acervo ainda será analisado e catalogado. Mas, numa avaliação prévia, a docente destacou o valor da doação. “Há amostras de rochas provenientes de diferentes áreas do Mendanha, mapas em papel vegetal e relatórios não publicados de projetos, além de uma coleção de amostras metálicas polidas”, explicou.

No acervo do prof. Calixto, há amostras de rochas provenientes de diferentes áreas do Mendanha (Foto: divulgação MRM)

Em entrevista à Coordenadoria de Comunicação Social (CCS/UFRRJ), a professora Soraya Almeida explicou a importância das investigações de André Calixto, além de sublinhar o potencial do acervo como base para futuras pesquisas sobre o Mendanha.

Quem foi o professor André Calixto? Qual sua importância para a Geologia da UFRRJ?

Soraya Almeida – André Calixto foi professor do curso de Geologia entre o final da década de 1970 e 2003, quando se aposentou. Também atuou como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Era especialista em fotointerpretação aplicada à Geologia e fez parte da primeira geração de docentes que introduziu imagens de satélite como técnica de mapeamento no ensino de geologia.

Conte-nos sobre as pesquisas de Calixto no Maciço do Mendanha.

S.A. – Na década de 1980, André realizou estudos do Maciço do Mendanha junto com o geólogo Victor Klein e propôs a existência de uma cratera vulcânica na região. Essa proposta ganhou destaque midiático nos anos 2000. Posteriormente, a tese foi refutada por estudos de Akira Motoki, que também foi professor na UFRRJ durante a década de 1980. A repercussão alcançada na mídia fez com que colegas de profissão criticassem os pesquisadores pela divulgação de um “mito”. Entretanto, esta desqualificação é improcedente, pois suas propostas tinham base empírica e cumpriram um papel histórico que não pode ser contestado. 

Pode detalhar um pouco mais isso?

S.A. – Diante de feições morfológicas anômalas do Mendanha, a existência de um sistema vulcânico raso era uma hipótese de trabalho coerente – mesmo que o modelo de uma cratera vulcânica tenha sido posteriormente reinterpretado como um sistema de raízes plutônico-subvulcânicas que foi exposta por denudação (1). Ou seja, as feições descritas por eles existem de fato.

Em 1935, o conceituado Alberto Lamego havia identificado o que considerou uma chaminé vulcânica no maciço. Essa descoberta de Lamego, depois também contestada, serviu como a base teórica aos trabalhos de André Calixto. 

As pesquisas de Akira Motoki esclareceram sobre a natureza intrusiva, ou seja, não vulcânica do corpo ígneo. Natural do Japão, onde se graduou, e com experiência com vulcões ativos, Akira Motoki também apresentou importantes reconsiderações, não apenas sobre o Mendanha, mas também sobre a hipótese de caldeira vulcânica de Poços de Caldas/MG.

Essa sequência de interpretações ao longo da história faz parte de um processo natural de evolução do conhecimento geológico, mas Vieira e Klein foram muito criticados por seus pares devido à grande repercussão da mídia sobre a existência de um vulcão extinto.

Apesar das críticas, essa divulgação auxiliou na criação do Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu em 1998, salvando uma enorme área de Mata Atlântica da especulação imobiliária e do avanço de pedreiras.

Além do mais, é geologicamente provável que tenha existido um vulcão ativo na superfície associado a esse sistema magmático do Mendanha, embora ele tenha sido completamente apagado pelo tempo, o que valida o uso popular da expressão “Vulcão do Mendanha”, que gerou um sentimento de orgulho e pertencimento na população desta região da Baixada Fluminense.

Qual a importância desse acervo para o Museu de Rochas e Minerais? 

S.A. – Aliando extensão e pesquisa, o MRM orienta estagiários no estudo do Maciço do Mendanha. As investigações utilizam o acervo pessoal do professor André Calixto como base histórica e científica para análises com um foco interdisciplinar.

Conheça o MRM!

O Museu está aberto de segunda a sexta, das 9h às 16h. 

Acompanhe as atualizações em: https://www.instagram.com/mrm.ufrrj/

E-mail: museurm@ufrrj.br

(1) De acordo com a geóloga Marcela Lobato, entrevistada pelo G1, o “vulcão” de Nova Iguaçu, que faz parte do Maciço do Mendanha, é muito antigo e já cessou sua atividade. 

“É produto de um processo erosivo, há milhares de anos, há mais de 60 milhões de anos. E, na verdade, para se classificar como edifício vulcânico, aquela região, aquela localidade deveria ter vários elementos, vários critérios”, disse Lobato. (Clique aqui para ler a reportagem na íntegra).

Em Geologia, “denudação refere-se ao processo geral de desgaste e remoção do material superficial da crosta terrestre”. (Cf. Enciclopédia Britannica: https://www.britannica.com/science/denudation ) 

Mais informações sobre o “vulcão de Nova Iguaçu” neste link: https://dadosabertos.rj.gov.br

Texto: João Henrique Oliveira (CCS/UFRRJ)