Evento reuniu pesquisas de iniciação científica e tecnológica, protótipos e uma competição de pitches com projetos desenvolvidos por estudantes da Universidade

No corredor do Salão Azul, Pavilhão Central (P1), pôsteres e apresentações orais reuniam trabalhos voltados à iniciação científica. Já no saguão, protótipos, softwares e outras tecnologias desenvolvidas por estudantes ocupavam o espaço destinado à iniciação tecnológica e à inovação. Foi nesse cenário que aconteceram, na tarde desta quinta-feira (17/9), a Mostra Tecnológica de Projetos e o Pitch PIBITI, durante a programação da XIII Reunião Anual de Iniciação Científica (RAIC) e da VII Reunião Anual de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (RAIDTec) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

A organização do evento vem buscando dar mais visibilidade à iniciação tecnológica. Segundo João Victor Nicolini, professor adjunto do Departamento de Engenharia Química e coordenador do evento, “a RAIDTec antigamente não tinha tanta força. A ideia é justamente dar essa identidade para a iniciação tecnológica e mostrar os produtos que estão sendo desenvolvidos”.

Coordenador geral da RAIC e RAIDTec, João Victor Nicolini

Inovação em desenvolvimento

Enquanto a RAIC reúne trabalhos de iniciação científica, a RAIDTec concentra projetos ligados ao desenvolvimento tecnológico e à inovação, que podem resultar em produtos, processos e soluções com possibilidades de aplicação. A Mostra Tecnológica foi uma das formas encontradas para ampliar a visibilidade dessas produções. Cerca de 50 trabalhos participaram da atividade, em diferentes áreas e estágios de desenvolvimento.

Entre os projetos expostos no saguão do Salão Azul, estava o desenvolvimento de um rastreador de baixo custo para os ônibus da frota universitária. A proposta surgiu da necessidade de facilitar o deslocamento pelo câmpus e permitir que os estudantes tenham mais previsibilidade sobre a circulação dos veículos. “A gente está pensando e desenvolvendo um rastreador que vai possibilitar ao aluno ver onde está o ônibus da Universidade, poder se antecipar e organizar melhor o seu dia a dia”, explicou Davi Machado, aluno do 9º período do curso de Geologia da UFRRJ e criador do projeto.

O dispositivo utiliza sensores e módulos de baixo custo para registrar a localização do veículo e enviar as coordenadas para um aplicativo. Segundo Davi Machado, o sistema está entre 80% e 90% concluído e já passou por testes em carros dentro da Universidade. O projeto foi desenvolvido a partir de equipamentos inicialmente utilizados em trabalhos de campo da Geologia e foi adaptada para atender a uma demanda cotidiana dos estudantes.

Orientador do projeto, Tiago Marino, docente do Departamento de Geociências e coordenador de pesquisa na UFRRJ, destacou o potencial de ampliar o uso da tecnologia para além do câmpus de Seropédica. “A ideia é criar um rastreador que seja de custo acessível e reproduzível também, quem sabe em outros câmpus e outras universidades”, afirmou. Para ele, a iniciação tecnológica também tem papel importante na formação dos estudantes, ao estimular autonomia, criatividade, experimentação e capacidade de solucionar problemas.

Docente do Departamento de Geociências e coordenador de pesquisa na UFRRJ, Tiago Marino.

Também na parte interna do salão, Maria Eduarda, aluna do 6º período do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ, apresentou o Pavilhão Oca, uma estrutura reticulada desenvolvida por estudantes do curso. Criado e aprimorado ao longo dos anos, o protótipo era inicialmente produzido em MDF, mas o grupo passou a incorporar técnicas de fabricação digital, como impressão 3D, modelagem paramétrica e corte a laser.

Em detalhe, estruturas do Pavilhão OCA

Os estudantes também realizam montagens coletivas em universidades e escolas públicas, ampliando o contato de outros públicos com as ferramentas utilizadas no projeto. “Nosso projeto é basicamente levar essa tecnologia, que às vezes é considerada inacessível, para outros lugares, principalmente para a população de baixa renda”, explicou Maria Eduarda.

Estudantes de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ, responsáveis pelo Pavilhão OCA

Caio Henry, aluno do 9º período do curso de Engenharia de Materiais da UFRRJ, levou à mostra protótipos desenvolvidos em seu laboratório por meio da manufatura aditiva. O processo parte da transformação de pellets de polímeros em filamentos, que depois são utilizados em impressoras 3D para fabricar dispositivos destinados às áreas agrícola e medicinal.

Entre os exemplos apresentados estava um dispositivo implantável desenvolvido para auxiliar no tratamento do câncer. Com diferentes níveis de porosidade, a estrutura foi projetada para receber um medicamento associado a um polímero biodegradável e liberá-lo de forma controlada diretamente na região do tumor. A proposta é tornar o tratamento mais direcionado, reduzindo a circulação do fármaco por outras partes do organismo e, consequentemente, a exposição de células saudáveis.

“A gente precisa encontrar uma alternativa de direcionar essa liberação, direcionar esse tratamento, para evitar os efeitos adversos e conseguir combater melhor o câncer”, explicou Caio Henry. Ainda em desenvolvimento, a pesquisa investiga a possibilidade de tornar a administração do medicamento mais localizada e reduzir efeitos adversos associados à quimioterapia intravenosa.

Caio Henry, ao centro, junto de suas colegas durante apresentação da RAIDTec

Do lado de fora, Igor Barcellos, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia da UFRRJ, acompanhou os trabalhos como avaliador, dois anos depois de ter participado do evento como apresentador. “Há pouco tempo eu estava aqui apresentando, então mudou muito rápido. É estranho estar agora avaliando, mas é uma oportunidade legal de contribuir e conhecer trabalhos de outras linhas de pesquisa”, contou.

Para Igor Barcellos, a avaliação também permite sair da área com a qual está mais familiarizado e entrar em contato com a diversidade de pesquisas desenvolvidas na Universidade. Cada trabalho foi analisado por dois avaliadores, que consideraram aspectos como objetivos, resultados, discussão e a própria apresentação dos estudantes. “A gente acaba ficando dentro da nossa bolha, então é uma oportunidade boa de sair dela e conhecer outras linhas de pesquisa e outros grupos”, afirmou.

Da coleta no Sul à pesquisa em Seropédica

No corredor do Salão Azul, Jasmin Ribeiro, aluna do 10º período do curso de Medicina Veterinária da UFRRJ, apresentou uma pesquisa sobre fungos encontrados no solo do bioma Pampa. O objetivo é identificar microrganismos que possam ser utilizados no controle biológico de pragas e vetores, contribuindo para o desenvolvimento de alternativas adaptadas às condições de diferentes regiões.

Jasmin Ribeiro, aluna de Medicina Veterinária da UFRRJ, durante apresentação da RAIDTec.

Orientadora do trabalho, Emily Mesquita, também pesquisadora do Laboratório de Controle Microbiano de Artrópodes de Importância Veterinária (LCM), explicou que as amostras analisadas por Jasmin Ribeiro vieram do Sul do país, a partir de parcerias com pesquisadores de outras regiões. “Nós recebemos recursos para fazer algumas viagens e coletas, mas eles não são suficientes. Algumas viagens dentro do Brasil são muito caras. Por isso, aproveitamos as parcerias que temos com outros professores do laboratório”, afirmou Emily.

A circulação dessas amostras e a colaboração entre pesquisadores mostram como a produção científica depende de redes de troca entre instituições e diferentes regiões do país. Para a universidade pública, esse tipo de conexão amplia o alcance das pesquisas, favorece o compartilhamento de conhecimento e permite que estudos desenvolvidos localmente dialoguem com problemas e realidades de outros territórios.

Tecnologia em três minutos

Após a Mostra Tecnológica de Projetos, o Salão Azul recebeu o Pitch PIBITI, competição que reuniu 16 estudantes, cada um com três minutos para apresentar a tecnologia desenvolvida. “Ele tem que ter uma dinâmica de mostrar o problema, o que está desenvolvendo e qual foi o resultado que teve”, explicou João Victor Nicolini. O formato exigiu síntese e clareza para comunicar os projetos ao público e à banca avaliadora.

Pitch PIBIT sendo apresentada pelo coordenador do evento João Victor Nicolini

As propostas contemplaram diferentes áreas, com pesquisas sobre medição automática de frutos, controle de parasitas, monitoramento de processos agrícolas, aproveitamento de resíduos, empreendedorismo, reciclagem de plásticos, manejo de espécies invasoras e identificação de fraudes em alimentos.

Troféu de melhor apresentação Pitch PIBIT

As apresentações foram avaliadas por Isabelle Guimarães, CEO da Flower Nanotechnology, e Rômulo Valadão, docente do Departamento de Tecnologia de Alimentos do Instituto de Tecnologia da UFRRJ.

Os participantes também concorreram a premiações oferecidas por parceiros do evento, entre elas uma consultoria em impressão 3D da Núcleo Consultoria, empresa júnior da Universidade, além de um prêmio da Flower Nanotechnology.

A vencedora foi Luana Morais Izidoro, aluna do 7º período do curso de Medicina Veterinária da UFRRJ, que apresentou o trabalho intitulado “Disrupção no desenvolvimento de Ctenocephalides felis felis submetidas ao teflubenzuron”, pesquisa voltada ao controle da pulga Ctenocephalides felis felis, parasita de importância para a saúde animal e humana. O estudo avalia a ação do teflubenzuron sobre o desenvolvimento de ovos e larvas, buscando interromper o ciclo do parasita e reduzir as chances de reinfestação no ambiente.

Luana Morais Izidoro, vencedora da Pitch PIBIT, ao lado dos avaliadores Rômulo Valadão e Isabelle Guimarães, juntos do coordenador do evento João Victor Nicolini

Soluções para a sociedade

Nas entrevistas, estudantes, professores, orientadores e avaliadores destacaram a importância da RAIC e da RAIDTec como espaços de formação, troca de experiências e divulgação do conhecimento produzido na UFRRJ. Para os participantes, o evento permite conhecer pesquisas de outras áreas, aprimorar a comunicação científica, estabelecer novas conexões e dar visibilidade a trabalhos desenvolvidos ao longo da graduação. A programação também evidencia a diversidade da produção acadêmica da Universidade e aproxima iniciação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação.

Para João Victor Nicolini, a iniciação científica e tecnológica representa o primeiro contato de muitos estudantes com a pesquisa dentro da Universidade. Além de dar visibilidade aos trabalhos desenvolvidos, a RAIC e a RAIDTec ajudam a mostrar que a UFRRJ e a Baixada Fluminense também produzem conhecimento, tecnologia e soluções capazes de ultrapassar os muros da instituição.

João Victor Nicolini concedendo entrevista para a bolsista de Jornalismo, Karla Xavier

Entre rastreadores, estruturas produzidas por fabricação digital, dispositivos voltados à saúde e pesquisas desenvolvidas a partir de parcerias com outras regiões do país, o evento mostrou diferentes caminhos percorridos pelo conhecimento produzido na UFRRJ. Mais do que apresentar resultados, a programação colocou essas pesquisas em circulação e reforçou o papel da universidade pública na formação de pesquisadores, no desenvolvimento tecnológico e na construção de respostas para diferentes demandas da sociedade.

Acompanhe a cobertura completa da XIII RAIC e da VII RAIDTec no perfil oficial do evento no Instagram @raic.ufrrj.raidtec.

Texto: Karla Xavier, bolsista de Jornalismo da CCS/UFRRJ.

Fotos: Gabriel Cosendey, bolsista de Jornalismo da CCS/UFRRJ.

Edição e publicação: Laura Berg, bolsista de Jornalismo, sob supervisão da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS/UFRRJ).