
A comemoração dos 20 anos do Instituto Multidisciplinar (IM) trouxe todos os elementos de um bom evento do gênero. Emoções, recordações, agradecimentos e muito orgulho permearam a celebração, realizada nesta quarta-feira (19/8). Mas, para além dos aspectos tradicionais de um aniversário institucional, aquela tarde-noite também serviu para reafirmar um traço distintivo dessa que é a casa da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em Nova Iguaçu.
“O IM tem uma peculiaridade: talvez seja o instituto mais diverso da UFRRJ”, disse a pró-reitora de Ações Afirmativas e Assuntos Estudantis, Joyce Alves, em sua fala na abertura da cerimônia, realizada no Auditório.
A docente é a própria representação dessa diversidade. Negra, oriunda da periferia e primeira mulher trans a ocupar uma pró-reitoria de uma universidade no país, Joyce é “a cara do IM”, tendo iniciado como professora da Rural justamente no câmpus de Nova Iguaçu em 2012.
Os rostos na plateia também tornavam patente a diversidade e a democracia que marcam o cotidiano ruralino do IM desde seu começo. Completamente lotado, o auditório foi colorido por uma comunidade múltipla em gêneros, raças, orientações sexuais e condições sociais.
“Falar de uma universidade inclusiva é fácil. Difícil é trazer para a concretude da vida. Sei que ainda temos muito que melhorar, mas o IM tem realizado muito bem esse papel”, comentou Joyce, pontuando as iniciativas do instituto – desde a adoção do banheiro neutro (foi o primeiro da Rural a implantá-lo), passando pela consolidação e respeitabilidade dos grupos e laboratórios dedicados aos estudos afro-descendentes, de gênero e de educação especial.
A comemoração do vigésimo aniversário teve participação do reitor Roberto Rodrigues, que conduziu a mesa de abertura, acompanhado por pró-reitores da UFRRJ. Já a segunda mesa reuniu a atual direção e integrantes das gestões passadas, que também foram homenageados com placas comemorativas no gabinete da direção.
Foi um dia pra lá de especial. Na passagem pelos 20 anos do Instituto Multidisciplinar, a atual direção não deixou passar em branco a lembrança dos ex-diretores. Ao lado do reitor Roberto Rodrigues, os professores Márcio Borges (diretor) e Sara Fazollo (vice-diretora) prestaram uma singela homenagem a diretores e seus respectivos vices que ocuparam as gestões passadas:
Lucília Augusta Lino e Ahyas Siss (2005/2009); Leila Dupret Machado, Paula Takatsuka e Carlos Roberto de Carvalho (2009/2013); Alexandre Fortes e Márcia Denise Pletsch (2013/2017); novamente Márcia Pletsch (dessa vez como diretora) e José Airton Chaves Cavalcanti (2017/2017); e Paulo Cosme de Oliveira e Marcos Azevedo Benac (2017/2025).




O descerramento de placas comemorativas foi realizado antes da cerimônia principal no Auditório. Fixadas na antessala do gabinete da direção, elas registram os nomes dos ex-diretores e seus vices.
O professor Márcio Borges fez questão de dar a palavra aos integrantes das gestões passadas, valorizando suas histórias e o legado deixado por eles ao longo de duas décadas de instituto.
A primeira a falar foi justamente a pioneira: professora Lucília Augusta Lino. Como primeira diretora, lembrou da fase anterior à construção do câmpus próprio, na Avenida Governador Roberto Silveira, que foi inaugurado em 2010. Antes disso, o IM/UFRRJ funcionou provisoriamente em diferentes instalações no município. (Clique aqui para ler mais sobre a história do IM, contada na reportagem “Instituto Multidisciplinar da UFRRJ celebra duas décadas em Nova Iguaçu”).
“Naquela época, era muito entusiasmo e garra para vencer as dificuldades iniciais. Numa ocasião, nosso primeiro técnico-administrativo, Fábio Abreu, improvisou uma mesa com uma porta para que pudéssemos fazer uma reunião”, recordou Lucília. “Chorei quando subi pela primeira vez a rampa deste nosso prédio atual”, completou.
A próxima a falar foi sua sucessora, professora Leila Dupret, que inaugurou o atual edifício. Em seu discurso, ela fez questão de valorizar o papel dos reitores Ricardo Miranda e Ana Dantas para a concretização do sonho de ter um câmpus da Rural em Nova Iguaçu.
Outros diretores e vices deixaram seus depoimentos, cheios de memórias e sentimentos. Na sua vez de discursar, a professora Márcia Pletsch não conseguiu ir em frente, tomada pela emoção. Mas, ainda que sem palavras, seu choro veio repleto de significado para todos os presentes naquela sala.
Tanto em sua fala no gabinete da direção quanto no auditório, o reitor Roberto Rodrigues – ele próprio um dos primeiros professores concursados do IM – deixou claro que vida pessoal e profissional se misturam naqueles 20 anos de história. “Três meses depois de começar a carreira no IM, casei com a Luciana [Ferreira]”, disse o reitor, referindo-se à esposa, que também é professora de Ciências Econômicas na UFRRJ.
Além disso, Rodrigues ressaltou o fato de as duas décadas do IM terem se constituído numa experiência definitiva e já enraizada no coração da Baixada Fluminense. Como professor vinculado ao Departamento de Ciências Econômicas do instituto, ele citou como exemplo ex-alunos do curso com quem manteve contato e que hoje já ocupam posições de destaque no mercado de trabalho. O reitor, no entanto, alertou para a necessidade de se pensar o câmpus Nova Iguaçu para o futuro, reforçando a integração.
“Não vamos conseguir avançar trabalhando isoladamente. Temos de manter e reforçar o diálogo entre todos os câmpus da Rural, e também com outras universidades e institutos do estado”, disse Rodrigues na mesa de abertura.
Rodrigues pontuou ainda que a diversidade do instituto também se manifestou na própria composição de suas gestões desde o início, agrupando por mulheres, pessoas pretas e LGBTs.
Completaram a mesa os pró-reitores Miliane de Souza (Graduação), José Luis Luque (Pesquisa, Pós-graduação e Inovação), Maria Ivone Barbosa (Extensão) e Joyce Alves da Silva (Ações Afirmativas e Assuntos Estudantis).
A segunda mesa reuniu o atual diretor, Márcio Borges, e os professores e professoras que, no passado, estiveram à frente da direção do IM: Lucília Augusta Lino, Leila Dupret, Alexandre Fortes, Márcia Pletsch e Paulo Cosme de Oliveira. Antes das falas dos integrantes da mesa, apresentou-se o cantor iguaçuano Pedro Lima e banda, que interpretou clássicos da MPB.
Como primeira diretora, a professora Lucília manifestou sua emoção por fazer parte dessa história, que ressaltou ter sido muito difícil e, ao mesmo tempo, prazerosa. Ela destacou que a chegada da UFRRJ a Nova Iguaçu – mais do que um sonho – representou um sopro de democracia e cidadania para a região.
“Havia, na época, um colegiado pleno para as discussões e tomada de decisões, onde todos os professores da unidade participavam, onde também os centros acadêmicos tinham assento naquela instância”, disse a professora, acrescentando que os servidores técnicos também possuíam representante.
Ela concluiu seu pronunciamento lançando um apelo para que os estudantes valorizem a universidade pública, a democracia e sua formação, pois são antídotos para que não se tornem pessoas manipuladas.
“É nessa perspectiva que se insere o Instituto Multidisciplinar, onde o povo trabalhador da Baixada Fluminense tem garantido seu acesso ao ensino público e de qualidade”, destacou.
Em sua breve intervenção, a professora Leila Dupret fez questão de ressaltar a ajuda do ex-reitor e da ex-vice-reitora da UFRRJ à época, Ricardo Miranda e Ana Dantas, sem os quais não teria sido possível a criação do IM. Ela lembrou ainda que, no período em que foi diretora, não havia apenas estudantes da Baixada, mas também de outros municípios de fora da região, como Rio de Janeiro e Niterói.
Já o professor Alexandre Fortes, como terceiro diretor da história do IM, registrou que o instituto foi fruto da luta e da mobilização da comunidade acadêmica, tendo sofrido muito descrédito de pessoas com visão elitista e que não acreditavam ser possível construir um instituto de uma universidade federal em Nova Iguaçu, no coração da Baixada Fluminense.
“Ao contrário dessa visão pessimista, acreditamos no projeto de criação de um câmpus que impulsiona o desenvolvimento social e econômico de uma região carente e imensa, inclusive maior em extensão territorial do que muitos países”, destacou Fortes, sublinhando o papel do IM na educação e na formação intelectual de jovens, na pesquisa e na extensão, a partir da interlocução e diálogo com as comunidades e organizações populares de seu entorno.
Em seguida, a professora Márcia Pletsch afirmou que a passagem dessas duas décadas do IM impactou de forma positiva na educação pública.
“Hoje em dia, temos diversos ex-alunos trabalhando em secretarias de educação, atuando como diretores de escolas e em órgãos municipais que lidam com educação especial. Inegavelmente, esse quadro é resultado do investimento feito em educação e tem um significado especial, pelo fato de o instituto estar localizado em Nova Iguaçu, a principal cidade de uma região pobre como a Baixada”, disse Pletsch.
Nessa perspectiva de inclusão, a ex-diretora do IM conclui que não há desenvolvimento socioeconômico sem que haja antes o desenvolvimento educacional. Márcia contou que foi a primeira professora da área de Educação Especial a chegar à UFRRJ. Para ela, todos os professores que têm ligação com a pesquisa, a extensão, o ensino e a gestão estão identificados com a ideia que gerou o IM, e que deixaram um legado muito bonito para a Baixada, um território tão injusto e desigual para seus habitantes.
O penúltimo a se pronunciar foi o professor Paulo Cosme de Oliveira, o antecessor da atual direção. Ele começou sua intervenção parabenizando Nova Iguaçu pelo presente que significou a vinda do Instituto Multidisciplinar para o município, pois, antes desse câmpus, os estudantes da cidade e de municípios vizinhos só tinham duas opções: frequentar universidades particulares da Baixada ou as públicas, que ficavam do outro lado da baía de Guanabara (caso da UFF), no centro do Rio de Janeiro (como a UFRJ), ou no bairro do Maracanã (o Cefet).
Integrante da primeira leva de professores do instituto, Cosme é um dos idealizadores e fundadores do curso de Direito no IM, ao lado dos professores Valter Correia Luiz (hoje aposentado) e Afrânio Faustino de Paula. Essa graduação teve início em março de 2009.
Paulo Cosme finalizou contando a curiosa história do tijolo que estava sendo exibido em cima da mesa do evento.
Em 2010, a UFRRJ em Nova Iguaçu funcionava em três locais distintos da cidade: o Colégio Monteiro Lobato; o prédio da Rua Capitão Chaves, vinculado à Diocese de Nova Iguaçu; e o Colégio Leopoldo. Naquele ano, no exato dia da aula inaugural do reitor Ricardo Miranda no Colégio Leopoldo, um movimento de estudantes resolveu fazer um protesto pacífico contra a demora na conclusão das obras das novas instalações do IM. Foi quando surgiu a ideia da entrega de um tijolo ao reitor. O então aluno do curso de História Allofs Daniel Batista teve a iniciativa de entregá-lo ao dirigente máximo da Universidade. Miranda recebeu a peça sem nenhum constrangimento e determinou que o tijolo fosse envolvido numa redoma de vidro, caracterizando como símbolo do IM, uma espécie de pedra fundamental da construção da nova e definitiva sede do instituto.
O diretor Márcio Borges fechou a mesa fazendo uma saudação especial à vice-diretora Sara Fazollo, com quem divide as responsabilidades diárias. Também agradeceu pela presença do reitor e dos pró-reitores; do atual diretor do câmpus Nova Iguaçu, Geraldo Pinheiro; dos representantes da Associação dos Docentes (Adur) e do Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Sintur) da Universidade Rural; além de professores, alunos e servidores técnicos dos diversos departamentos da Universidade. Um agradecimento especial foi endereçado à Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica da UFRRJ (Fapur), que distribuiu canetas comemorativas com o símbolo da instituição.
Segundo Borges, estar hoje no IM/UFRRJ é cruzar uma linha do tempo feita de coragem, persistência e transformação para o futuro.
“Há duas décadas, o que era apenas um projeto ousado, visando ao desenvolvimento da região, hoje consolidou-se como realidade palpável e promissora. Olhar para esse nosso passado é lembrar daqueles que vieram abrindo caminhos para essa nova realidade, como professores dando aulas em condições precárias e desafiadoras, técnicos que estruturaram a máquina administrativa partindo do zero e estudantes que acreditaram que a expansão da universidade pública e de qualidade era um direito inalienável”, disse o diretor.
Nessa passagem dos 20 anos do IM/UFRRJ, o sentimento do atual diretor é de celebração de um sonho e de um desejo coletivo: que Nova Iguaçu possuísse um câmpus de universidade pública. Não obstante, ele alertou que muito ainda há de ser feito por essa região e seus estudantes, tomando como exemplo a falta de cursos relacionados à área de saúde, como medicina e enfermagem, justamente numa região carente, onde a qualidade de vida é negada à grande maioria de seus habitantes.
Finalizando, o professor Márcio Borges pontuou o protagonismo da instituição: “Quando a UFRRJ vai para Nova Iguaçu, ela sai de si mesma e, de fato, vai se encontrar como uma Universidade da Baixada Fluminense”.
Ao final da cerimônia, em nome do Fórum Estadual de Educação, a professora Fabiana Rodrigues, coordenadora do FEE e integrante do Departamento de Formação Docente do Instituto Multidisciplinar, fez a entrega ao professor Márcio Borges da Moção de Reconhecimento pelos 20 anos do IM, intitulado Diploma Professora Regina Leite Garcia.
Reportagem: João Henrique Oliveira (CCS/UFRRJ) e Ricardo Portugal (Assessoria de Comunicação do IM/UFRRJ)
Fotografias: Miriam Braz (CCS/UFRRJ) e Ricardo Portugal
Edição: João Henrique Oliveira