Entre 23 de julho e 7 de agosto, a iniciativa reuniu acadêmicos nacionais e internacionais para fomentar debates sobre temas que envolviam desde a compreensão da sociedade contemporânea à vida acadêmica.

No dia 7 de agosto, deu-se por encerrada a primeira edição da Escola de Inverno, iniciativa fruto da colaboração entre o Centro de Estudos Avançados (CEA) e o Departamento de Relações Internacionais e Interinstitucionais (DRII) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A programação foi composta por 15 atividades realizadas em diferentes formatos, sendo 14 minicursos e uma palestra.
Os conteúdos das aulas abrangeram tópicos diversos, dentre eles, geopolítica, educação, formação docente, pesquisa, história contemporânea, sociedade e tecnologia. Dessa forma, a edição de estreia da Escola de Inverno promoveu o intercâmbio de conhecimento, mobilizando especialistas nacionais e internacionais nos debates sobre esses assuntos em encontros on-line e presenciais, que aconteciam na sede do CEA, localizada na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro.
A iniciativa seguiu o modelo de projetos semelhantes realizados no Brasil e mundo afora, nos quais as instituições organizam cursos de curta duração ministrados por especialistas da casa e de outras universidades. Tradicionalmente realizados no meio do ano no hemisfério norte, esses programas são conhecidos como “Summer Schools” (Escolas de Verão) em alusão à estação do ano na qual as atividades se desenvolve nesses países. Contextualizando a ideia para terras brasileiras e sua estação de meio de ano, por aqui, programas dessa natureza são conhecidos como Escola de Inverno.
Coordenadora do CEA e uma das idealizadoras da Escola de Inverno da UFRRJ, a professora Ana Garcia, revela que a ideia para o projeto surge do ímpeto em apresentar a UFRRJ como um espaço fértil para a produção científica e também para o intercâmbio de conhecimento. “A ideia era que essa iniciativa oferecesse oportunidades para testarmos, coisas que não fazemos nos currículos convencionais, como ministrar um curso em idioma estrangeiro, por exemplo”, explica. A docente complementa: “Por outro lado, também damos visibilidade às pesquisas de ponta que são realizadas dentro da nossa universidade. É uma oportunidade de capacitação e de avanço da internacionalização”.
Nesse âmbito, a professora Maria Villarreal, vice-coordenadora da Coordenadoria de Relações Internacionais e Interinstitucionais (CORIN) da UFRRJ, detalha como a Escola de Inverno integra o projeto de internacionalização da UFRRJ. “A Escola de Inverno está alinhada com o Plano e a Política de Internacionalização da nossa universidade e que se soma aos esforços que estamos fazendo para consolidar a internacionalização como um dos pilares da UFRRJ”, defende.
“Tivemos participação de professores convidados de países da América Latina, Europa e África com alguns dos minicursos e oficinas ministrados em espanhol e inglês. Tais iniciativas constituem exemplos concretos de internacionalização em casa”, destaca a docente que também é uma das idealizadoras do projeto. A expectativa dos organizadores é de que a Escola de Inverno da UFRRJ aconteça anualmente.
Confira a seguir como se desenvolveu cronograma ao longo dos 10 dias de atividades:
Primeiros cursos
O primeiro minicurso, intitulado “Juventudes y Participación Política” promoveu reflexões sobre os desafios e as possibilidades da participação política das juventudes na América Latina. Ministrado em espanhol, o curso estendeu seus debates até o dia 24, quando encerrou as atividades.

O cronograma teve seguimento nos dias 29 e 30 de julho, quando aconteceu o minicurso “Rural Development in Times of Transition”, apresentado em língua inglesa pelo professor Terry Marsden, da Cardiff University, do Reino Unido. Durante os dois dias de atividades, foram apresentados e discutidos os resultados das pesquisas desenvolvidas pelo docente sobre as dinâmicas sociais e ecológicas da reestruturação dos sistemas alimentares. As análises tiveram como base estudos realizados no Reino Unido, na França e no Brasil, proporcionando uma perspectiva comparativa sobre os desafios enfrentados pelos diferentes contextos rurais.
Economia circular e Inteligência Artificial
O início do mês de agosto foi acompanhado pelo começo de um novo ciclo na programação da Escola de Inverno. A nova semana de atividades abrangeu um total de 13 cursos, com os dois primeiros sendo o workshop “Análise de conteúdo e uso do software ATLAS.ti” e o minicurso “Economia Circular e Sistemas Alimentares Sustentáveis: fundamentos e aplicações na produção avícola”.
O workshop das professoras Maria Julia Gimenez (PPGS/UFRRJ) e Bruna Figueiredo (CPDA/UFRRJ) apresentou os fundamentos da análise de conteúdo por meio da plataforma ATLAS.ti, abordando desde a organização de projetos e a codificação de documentos até a utilização de recursos de Inteligência Artificial para apoiar análises qualitativas e a geração de relatórios.
Já o minicurso on-line ministrado pelas docentes Fabíola Helena dos Santos (PPGCTIA/UFRRJ) e Juliana Silva Virgínio (PPGCTIA/UFRRRJ) discutiu os princípios da economia circular aplicados aos sistemas alimentares sustentáveis, com ênfase na produção avícola e na adoção de práticas voltadas ao uso mais eficiente dos recursos. Ambos iniciaram e encerraram-se no próprio dia 3 de agosto.
O dia também foi marcado pela estreia de cursos que prolongaram-se ao longo da semana. Entre eles encontram-se os minicursos “Biopolíticas e tecnociências nos sistemas alimentares globais”; “Formação docente internacional e práticas reflexivas”, “Habitar, perceber, traduzir: intercâmbios entre antropologia e ecologia” e “Educação Física Escolar em Perspectivas Internacionais”.
Migração em pauta

A agenda do dia 4 foi aberta com o minicurso “Migración México–Estados Unidos: tendencias, cambios recientes y claves para entenderlos”. Nele, a professora Letícia Calderón (FLASCO, México) propôs uma análise das transformações históricas e contemporâneas da migração entre México e Estados Unidos. Nesse sentido, foram discutidas políticas migratórias, dinâmicas sociais e econômicas, direitos humanos e os desafios da governança migratória na região.

Também tiveram início os minicursos “Masculinidades, viriarcado e androcentrismo”, ministrado pelos professores Fábio Henrique Lopes (UFRRJ) e Wendell dos Reis Velloso (UERJ), e “Cities and Cultures: Narratives, Identities and Urban Futures”, conduzido por docentes da UFRRJ, Chabot College e UC Berkeley. As atividades propuseram reflexões sobre as construções sociais das masculinidades, relações de poder e gênero, além das múltiplas formas de compreender as cidades como
espaços de identidade, cultura, memória e imaginação.


Enquanto isso, o curso “Educação Física Escolar em Perspectivas Internacionais” chegou ao fim. Coordenado pelos docentes Rodrigo Lema Del Rio Martins e Marcel Barcelos (UFRRJ), o minicurso promoveu uma análise comparativa entre diferentes experiências da Educação Física escolar na América do Sul, reunindo discussões sobre formação docente, educação infantil, pós-graduação e avaliação da aprendizagem em países como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Colômbia.
Extensão e diálogos intercontinentais
Pesquisas de extensão e relações internacionais foram as temáticas centrais dos minicursos que tiveram início e fim no dia 5 de agosto. Em “Diálogos Brasil-África: Economia e Geopolítica no Atlântico Sul”, realizado pela manhã, os participantes foram introduzidos às discussões sobre a atuação de empresas brasileiras em países como Angola e Moçambique, além dos desafios da cooperação internacional no Atlântico Sul.
O curso da professora Ana Garcia (CEA/UFRRJ), Danilo Marcondes (EGN) e Gustavo de Carvalho (SAIIA, África do Sul) também abordou o papel da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), a presidência brasileira da organização e a importância estratégica das relações entre Brasil e África do Sul para a estabilidade regional.



Em sequência, aconteceu o minicurso “Pesquisador e extensionista: criando ações e experiências práticas de extensão na pós-graduação”, da professora Vanessa Biancard (PPGTA/UFRRJ e IFES/ES). O encontro discutiu a inserção da extensão universitária na pós-graduação, a curricularização da extensão, experiências práticas e possibilidades de articulação entre pesquisa e ações transformadoras junto à sociedade.

Ao final do dia, houve a conclusão do minicurso “Formação docente internacional e práticas reflexivas: o que podemos aprender com a experiência irlandesa?”, das professoras Beatrice Cavalcante Limoeiro (CTUR/UFRRJ) e Clara Carvalho Machado (SME Rio das Ostras). A atividade compartilhou experiências e metodologias de desenvolvimento profissional contínuo a partir da especialização em Gestão e Liderança Educacional, realizada na Mary Immaculate College (MIC), em Limerick, Irlanda, em parceria com a CAPES.
Demais cursos iniciados em dias anteriores também tiveram seguimento nesta data e compuseram a programação do dia.
Masculinidades, cidades
Dando sequência, o dia 6 (quinta-feira) foi voltado à continuidade de algumas atividades e o encerramento de outras. Entre eles, o minicurso “Cities and Cultures: Narratives, identities and urban futures”, apresentado pelos professores Anderson Gomes, Elisa Lima Abrantes (UFRRJ), Flavia Maria Lake (Chabot College) e Max Buchholz (UC Berkeley). Durante o curso, foi promovida uma abordagem interdisciplinar sobre a cidade como espaço físico, cultural e simbólico, articulando literatura, identidade, arquitetura, cinema e ficção científica para compreender como os espaços urbanos são vividos, representados e imaginados.
Naquele dia, também foi concluído o minicurso “Masculinidades, viriarcado e androcentrismo. Apresentação e análise da obra Le Mythe de la virilité. Un piège pour les deux sexes, de Olivia Gazalé”. Ao longo dos encontros, os participantes discutiram as historicidades das masculinidades, o conceito de viriarcado, o androcentrismo e as diferentes formas de dominação de gênero, a partir da obra da filósofa francesa Olivia Gazalé.
Conclusão
Por fim, era chegado o dia que culminou na conclusão da Escola de Inverno. A data final do projeto foi acompanhada pela conclusão de quatro cursos, todos em modalidade on-line. Entre os concluintes, dois também começaram nesse mesmo dia.
“Circuitos financeiros e os labirintos para investigação científica: Agronegócio e o ecossistema das finanças sustentáveis”, coordenado por George Flexor (CPDA/UFRRJ) foi um dos minicursos estreantes. A formação, realizada em formato de ateliê de pesquisa, reuniu reflexões metodológicas e compartilhamento de experiências. Assim, discutiu as relações entre mercado financeiro, agronegócio, sustentabilidade e transição ecológica, com atenção aos processos de financeirização da agricultura e à digitalização da governança fundiária e ambiental.
O outro estreante, “The First War of the 21st Century’s Multipolar System: Capitalist Expansionism and Ensuing Geopolitics”, lecionado em inglês, o encontro colocou em pauta as transformações do sistema internacional e a emergência de uma ordem multipolar. Sobre as elucidações do professor Hal Tagma, da Northern Arizona University (EUA). A atividade discutiu como a expansão capitalista durante o período unipolar contribuiu para o surgimento de novos rivais geopolíticos, além de abordar o conflito na Ucrânia no contexto das disputas entre o Ocidente e a Rússia.
Da mesma forma, o dia 7 caracterizou a culminância dos demais cursos iniciados ao longo da semana. Apresentado pela professora Ana Paula Perrota (PPGcS/UFRRJ) “Biopolíticas e tecnociências nos sistemas alimentares globais: desafios epistêmicos, metodológicos e de governança multiespécie”, após cinco dias de dinâmicas on-line e presenciais, encerrou as reflexões sobre biossegurança, mudanças climáticas, sistemas agroalimentares, soberania alimentar e as relações entre humanos, animais e microrganismos.

O mesmo vale para o minicurso “Habitar, perceber, traduzir: intercâmbios entre antropologia e ecologia com Ingold, Descola e Wilk”, ministrado pelos professores Andrey Cordeiro, Carmen Andriolli e pelo doutorando Caio Tácito (CPDA/UFRRJ). O conteúdo do curso foi voltado às contribuições da antropologia ecológica e das perspectivas ontológicas para compreender as relações entre humanos, animais, plantas, clima e outros elementos que compõem a vida social.
Texto e fotos: João Pedro Moraes, coordenador de Comunicação do CEA