Projeto de extensão do curso de Geografia recupera memória, tradição e protagonismo feminino em comunidade paratiense

Visita a Paraty em 2025 (foto: divulgação)

Olhar para as fases da lua para saber a hora da roça ou prever o humor da maré; manejar a terra com a agroecologia e liderar a resistência territorial na praia. Longe dos laboratórios tradicionais, essa ciência ganha forma no projeto “Trajetórias de Mulheres Caiçaras: Memórias e Territorialidades de São Gonçalo, Paraty”, desenvolvido pelo Programa de Educação Tutorial de Geografia (PET Geografia) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). A iniciativa resgata o protagonismo e os saberes ancestrais femininos na Costa Verde fluminense.

Conduzida pela professora de Geografia do Instituto Multidisciplinar (IM-UFRRJ) Anita Loureiro de Oliveira, a iniciativa consolida uma relação de uma década com a comunidade caiçara de São Gonçalo, em Paraty (RJ). O mais recente desdobramento dessa trajetória é um jogo educativo de tabuleiro de formato circular, pensado para aproximar as novas gerações da comunidade de sua própria história e salvaguardar saberes que o tempo e a urbanização ameaçam apagar.

Uma década de diálogo e escuta mútua

A aproximação com a região teve início em 2016, a partir de aulas de campo e da articulação com o Fórum de Comunidades Tradicionais, que congrega povos caiçaras, indígenas e quilombolas de Paraty, Angra dos Reis e Ubatuba. Ao longo dos anos, o grupo publicou um livro com pesquisas realizadas com a comunidade de São Gonçalo e elaborou, em 2018, um mapa ilustrado voltado ao Turismo de Base Comunitária (TBC) — um modelo focado no sustento e na cultura da comunidade, longe do turismo predatório. 

Com o amadurecimento das visitas e a escuta atenta às lideranças locais, o papel central das mulheres emergiu de forma inequívoca.

“A pesquisa surge quando, em trabalho de campo, percebemos que a associação de moradores era presidida por uma mulher, que lugares de referência para a comunidade faziam referência a trajetórias femininas — como a Praia da Rosinha e o Rancho da Tânia — e que elas lideravam o processo de retomada dos territórios ancestrais na praia”, explica Anita.

Anita Loureiro de Oliveira, professora de Geografia do IM-UFRRJ

A representação política comunitária e outras formas de lideranças locais como o TBC nos aproximaram de Mauricéia Pimenta — egressa da Licenciatura em Educação do Campo da Rural e articuladora fundamental do diálogo entre o território e a academia —, e traduz o diálogo de saberes que está na base da proposta do PET. Esta leitura dos modos como a comunidade faz uso do território também revela relações de gênero que historicamente se expressa no trabalho dos homens mais dedicado à pesca em alto-mar, enquanto as mulheres assumiram a gestão dos sítios e quintais produtivos, o manejo com mariscos e a rica culinária caiçara com base nas práticas espaciais que conectam a roça ao mar.

Grupo PET-Geo em 2018 / Reprodução

Topofilia e memória impressa no território

Na Geografia, o apego afetivo e o sentimento de identidade construídos em relação a determinado espaço recebem o nome de topofilia. Em São Gonçalo, esse vínculo com o território é feminino até mesmo na toponímia. Ao percorrer as trilhas e praias da região, as pesquisadoras notaram que os marcos espaciais levavam nomes de mulheres que ali construíram suas vidas: a Praia da Rosinha, a Praia da Tia Augusta, a Cachoeira da Fia. Eram marcas geográficas de existência e resistência.

Grupo PET-Geo em 2025

Do campo ao tabuleiro: a ludicidade que não elege perdedores

A comunidade carrega marcas históricas de conflitos fundiários e deslocamentos forçados, intensificados a partir da década de 1970 com a abertura da rodovia Rio-Santos (BR-101), que separou o território entre a serra (onde ficaram os sítios e moradias) e a praia (área vital para o trabalho e a atracação de barcos). Mapear essas memórias tornou-se, portanto, um instrumento crucial de afirmação de direitos territoriais e de preservação da identidade caiçara.

A síntese mais recente desse intercâmbio acadêmico e comunitário ganhou corpo em um jogo de tabuleiro de lógica contra-hegemônica. Diferente dos jogos tradicionais baseados em competição, acúmulo de bens ou eliminação de adversários, o jogo criado pelo PET Geografia é circular e cooperativo: não tem vencedores nem perdedores.

Cartas informativos do Jogo Território Caiçara / Divulgação

        O tabuleiro convida os participantes a percorrer as marés da vida caiçara por meio de cartas temáticas:

  • Saber da Maré: cartas informativas que compartilham curiosidades históricas e tradições do território caiçara.
  • Maré Alta: cartas de perguntas e reflexões que celebram os saberes ancestrais, o uso medicinal de ervas, a cestaria em fibras naturais, a ciranda caiçara e a culinária tradicional.
  • Maré Baixa: cartas que abordam momentos de adversidade, pressões externas e a memória das lutas contra a expropriação da terra.

A dinâmica foi construída em oficinas e rodas de conversa com as próprias moradoras. Originalmente focado em São Gonçalo, o projeto acolheu a sugestão das mulheres caiçaras para que a estrutura se tornasse abrangente, permitindo que o jogo circulasse e fortalecesse a identidade e o pertencimento territorial de crianças e jovens de outras comunidades caiçaras de Paraty.

Jogo Território Caiçara / Divulgação

Apresentado com destaque no Encontro Nacional de Grupos do PET (ENAPET), em Brasília, o material agora retorna à comunidade em sua versão final impressa.

Fazer ciência é reconhecer outras epistemologias

Para além dos artigos e publicações científicas, a experiência transformou o olhar das jovens pesquisadoras envolvidas. A vivência na comunidade revelou que o método científico e o conhecimento tradicional bebem da mesma fonte: a observação rigorosa do mundo natural e o compromisso coletivo com a vida.

“Para mim, foi uma experiência que me fez enxergar o mundo com outra consciência. A gente precisa ter a clareza de que o saber não precisa vir exclusivamente de dentro dos muros da universidade para ter status de intelectualidade. Elas também são grandes cientistas”, ressalta a bolsista e estudante de Geografia Geovanna Lopes de Oliveira.

A também estudante de Geografia e bolsista no projeto, Camilly Goes Cardoso, compartilha do mesmo sentimento ao refletir sobre a troca entre a academia e a comunidade:

“A luta das mulheres caiçaras é única. Ver uma senhora que sabia a hora certa de ir para o trabalho apenas olhando a posição da lua, sem precisar de relógio, mostra como existem outras formas legítimas de existir e produzir conhecimento. Levar a universidade até lá e construir isso juntas é o verdadeiro sentido da extensão”, pontua Camilly.

Para ver mais publicações do projeto, acesse aqui.

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Para consultar o livro publicado pelo PET Geografia, clique aqui.

Texto: Rodrigo Maciel, bolsista de Jornalismo da CCS/UFRRJ.

Edição: Michelle Carneiro, jornalista da CCS/UFRRJ.