A presença das mulheres na ciência brasileira vem crescendo nas últimas décadas. Elas já são maioria entre estudantes de mestrado e doutorado e vêm ampliando sua participação na produção científica e em espaços de liderança. Apesar dos avanços, a trajetória até posições de maior destaque ainda é marcada por desigualdades relacionadas ao gênero, à maternidade e à divisão das responsabilidades de cuidado.
É nesse contexto que a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) 2026, que tem como tema “Ciência delas”, propõe ampliar a visibilidade e o reconhecimento das mulheres como protagonistas da produção e da difusão do conhecimento científico e tecnológico.
Mulheres são maioria na formação acadêmica
Os números mostram uma mudança importante no perfil da formação científica brasileira. Dados do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) apresentam que as mulheres já são maioria entre as pessoas que obtêm títulos de mestrado e doutorado no país.
A inversão aconteceu primeiro no mestrado, em 1997. No doutorado, as mulheres passaram a ser maioria a partir de 2003. Em 2023, elas representavam 54,62% das pessoas com mestrado e doutorado, segundo os dados reunidos.

Na Unesp, uma das principais instituições públicas de ensino superior e pesquisa do Brasil, as mulheres representavam 54,7% dos estudantes de pós-graduação e 52,8% das vagas de graduação. A universidade também registrava, em 2025, 831 grupos de pesquisa liderados por mulheres, o equivalente a 64% dos 1.296 grupos sediados na instituição.
Os números mostram, portanto, que o acesso das mulheres à formação científica avançou significativamente. Mas olhar apenas para a entrada na ciência não é suficiente.
O desafio de permanecer e chegar à liderança
À medida que se avança na carreira acadêmica, a participação feminina começa a diminuir. Estudos mostram que, em 2023, entre docentes que atuavam em universidades brasileiras, 57,39% eram homens e 42,61% eram mulheres.
A diferença também aparece em instituições de pesquisa. No Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), as mulheres representavam 38% dos pesquisadores ligados diretamente à pesquisa. No Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), elas correspondiam a 22,8% dos servidores no início de 2024. Considerando apenas o corpo docente, eram 31 mulheres entre 152 professores permanentes, ou 20,34%.
Na Unesp, alguns indicadores apontam avanços. Mulheres ocupavam 50,8% das coordenações de cursos de graduação e 45,4% das coordenações de pós-graduação. A universidade também elegeu Maysa Furlan como sua primeira mulher reitora.
Maternidade
Entre os obstáculos apontados pelas pesquisadoras está a dificuldade de conciliar a carreira científica com a maternidade e as responsabilidades de cuidado.
A pesquisadora Valéria Spolon, entrevistada pelo g1, relata que a chegada de um filho tornou especialmente difícil manter o mesmo nível de produtividade exigido pela carreira científica. A reportagem também destaca como a maternidade pode provocar uma redução temporária da produção científica em um período importante para a progressão profissional.
Essa questão não está restrita à academia. Dados apresentados pelo Valor Econômico, com base em estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), mostram que a responsabilidade pelo cuidado de crianças e familiares e pelos afazeres domésticos é apontada por 31% das mulheres que estão fora da força de trabalho, contra 3% dos homens.
O estudo aponta ainda que as mulheres dedicam, em média, 21 horas semanais às atividades domésticas e de cuidado, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas. Em 2025, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho estava em 53%, contra 72% entre os homens.
Desigualdades continuam no mercado de trabalho
Mesmo quando chegam ao mercado de trabalho, as mulheres não encontram condições de igualdade.
Segundo o levantamento divulgado pelo Valor Econômico, com base no Relatório de Transparência e Igualdade Salarial do governo federal, as mulheres recebiam, em média, R$ 3,9 mil, enquanto os homens recebiam R$ 4,9 mil. A diferença aumenta quando se considera o recorte racial: mulheres negras recebiam, em média, R$ 2,9 mil, enquanto mulheres brancas e de outras etnias recebiam R$ 4,8 mil.
Nos cargos de direção e gerência, as mulheres recebiam, em média, 29% menos que os homens. Entre mulheres negras, a diferença chegava a 40%.
Na ciência, as desigualdades assumem outras formas: dúvidas sobre a capacidade profissional, menor reconhecimento, dificuldades para conciliar maternidade e pesquisa e menor presença em cargos de liderança são alguns dos obstáculos relatados pelas pesquisadoras ouvidas pelo g1 e pelo Jornal da Unesp.
Por que falar sobre mulheres na ciência?

Os avanços mostram que a presença feminina na ciência brasileira já é uma realidade. Ao mesmo tempo, os dados revelam que ainda existem barreiras que podem dificultar a permanência e a ascensão das mulheres ao longo da carreira.
Ampliar essa participação significa também ampliar a diversidade de experiências e perspectivas presentes na produção científica. Por isso, discutir a presença das mulheres na ciência não significa apenas reconhecer quem já chegou. Significa também construir caminhos para que meninas e mulheres possam ingressar, permanecer, desenvolver suas pesquisas e ocupar espaços de liderança em diferentes áreas do conhecimento.
Fontes:
- g1 – “Mulheres são maioria com mestrado e doutorado no Brasil, mas homens ainda dominam posições de liderança na ciência”
- Jornal da Unesp – “Mulheres são maioria entre os mestres e doutores formados pela Unesp e cada vez mais influentes nas atividades de pesquisa”
- Valor Econômico – “Só metade das mulheres está no mercado de trabalho”
Texto: Victória da Silva / Jornalista Bolsista na Proext