Universidade fez homenagem ao compromisso e à dedicação do líder indígena pela defesa dos direitos dos povos originários e pela proteção ao meio ambiente

Em cerimônia realizada no auditório Gustavão, a UFRRJ concede, pela primeira vez em sua história, um título de Doutor Honoris Causa a um indígena: o cacique José Urutau Guajajara (à esq.). Mesa cerimonial foi presidida pelo vice-reitor César Da Ros (2° da dir. à esq.), com participação do diretor do CTUR Marden Rodrigues e da professora Valéria Chaves (Foto: Miriam Braz — CCS/UFRRJ)

Acostumado a ser palco de momentos históricos, o Auditório Gustavo Dutra celebrou mais um deles na manhã desta quarta-feira, 7 de outubro de 2026. Pela primeira vez, depois de mais de 100 anos de origem, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) concedeu um título de Doutor Honoris Causa a um indígena: José Wilhame Pinto Araújo, o cacique José Urutau Guajajara. A concessão da mais alta honraria da instituição reconhece seu compromisso e sua dedicação pela defesa dos direitos dos povos originários e pela proteção ao meio ambiente.

A sessão solene foi memorável não apenas pelo título em si, mas também pela forma como tudo se desenrolou. Com uma plateia repleta de integrantes dos povos originários, o Gustavão se viu envolto por uma atmosfera de sons de chocalhos misturados a palmas, cocares com penas coloridas, belas pinturas corporais, danças rituais e cantos ancestrais. 

Mesmo que tenham se cumprido protocolarmente todos os ritos institucionais (uma criação dos brancos colonizadores), a cerimônia marcou sua originalidade para além do ineditismo da concessão do título a um professor indígena. Após a concessão da honraria, os integrantes da Aldeia Maracanã e demais representantes dos povos originários subiram ao palco e, sob o comando de Urutau, cantaram e dançaram ao som de cânticos ancestrais. 

A Rural se encontrava ali com o Brasil que nasceu antes do Brasil. Naquele palco, foi Pindorama que rodou e cantou. Foi o canto do Urutau que ecoou.

Resistência e preservação da cultura indígena

José Urutau é uma liderança da Aldeia Maracanã, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O local destaca-se como ponto de resistência e luta pelos direitos dos povos indígenas desde 2006, quando ocorreram as primeiras ações para reassumir o prédio onde funcionava o antigo Museu do Índio. Em 2013, Urutau ganhou notoriedade ao permanecer em cima de uma árvore, por mais de 26 horas, em sinal de resistência ao processo de desocupação ordenado pelo governo do estado.

Proposta pela professora Valéria da Conceição Chaves, do Colégio Técnico (CTUR), a homenagem também foi justificada pela relação de Urutau com a Rural. “Seu filho Wirahu é ex-aluno, e vários parentes que foram moradores da Aldeia também vieram estudar aqui”, lê-se num dos trechos do pedido de concessão. O cacique também participou de dois eventos realizados na Universidade: o ‘Congresso Intercultural dos Povos Indígenas e Tradicionais do Maraká’nà’, em 2014, e a ‘I Mostra dos Povos Originários das Américas: Saberes Originários e Horizontes’, realizada em 2023 no CTUR.

Professora Valéria Chaves (CTUR) (Foto: Miriam Braz — CCS/UFRRJ)

Na apresentação da trajetória do cacique, a professora Valéria Chaves ressaltou ainda que o título de Honoris Causa “reconhece saberes singulares, não necessariamente acadêmicos”. 

De fato, Urutau trabalha com conhecimentos e práticas que extrapolam os muros da universidade. No entanto, ele também reúne qualificações acadêmicas que complementam sua caminhada. Assim, José Wilhame Pinto Araújo é graduado em Pedagogia (Unesa); especialista em Educação Indígena (UFF) e em Línguas Indígenas (Museu Nacional/UFRJ); mestre em Linguística (Museu Nacional/UFRJ); e professor de língua e cultura tupi-guarani no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Iserj/Faetec).

‘Exemplo de chamado para a luta’

Presente ao evento, o Coletivo Indígena da UFRRJ foi representado pela professora da Licenciatura em Educação do Campo (LEC) Kátia Zephiro, do povo puri. Em sua fala emocionada, ela destacou que o grupo “nasce e se fortalece” pela luta encampada pelo cacique.

“Hoje o urutau, pássaro tão simbólico para a cultura indígena, está aqui cantando”, disse a professora. “O cacique José Urutau é um exemplo de chamado para a luta – não só pela vida dos humanos, mas das plantas, das florestas, dos animais. Que este título seja o primeiro momento em que a presença indígena esteja em nosso cotidiano – não apenas como folclore ou adereço”.

Depois da entrega do título pelas mãos do vice-reitor César Da Ros, Urutau teve seu momento de fala, que se iniciou com um assobio, seguido por cantos e falas na língua indígena. Ainda que a maioria dos presentes não tenha captado o sentido exato do que foi dito, esses sons trouxeram o traço da presença nativa que marca a identidade do país. Uma voz que se tenta calar desde o início do processo colonizatório, mas que ainda ressoa.

O Coletivo Indígena da UFRRJ foi representado pela professora da LEC Kátia Zephiro (à dir.), que destacou que o grupo “nasce e se fortalece” pela luta de Urutau (Foto: Miriam Braz — CCS/UFRRJ)

“Somos apagados desde 1500 pela cultura dominante. Mas ainda estamos vivos. Não nos mataram totalmente”, afirmou o cacique.

O passado se fez presente em vários momentos da fala de Urutau, que lembrou do bisavô, da luta de seu povo guajajara no início do século XX e de sua participação na Eco 92 — conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada de 3 a 14 de junho de 1992 na cidade do Rio de Janeiro.

“Ali o mundo sentiu a necessidade de discutir o aquecimento global. Começamos a contar nossa história”, disse.

UFRRJ e Aldeia Maracanã: histórias entrelaçadas

Tanto na fala da professora Valéria Chaves quanto na do cacique Urutau, um entrelaçamento de duas histórias foi outro ingrediente para deixar aquela manhã mais especial e significativa. 

O território onde se encontra a Aldeia Maracanã emerge como um ponto de convergência de trajetórias e personagens. Antes de qualquer ocupação do colonizador, ressalte-se que aquele solo (como tantos outros neste país) era o mundo original dos indígenas antes da chegada dos portugueses. 

Já na metade do século XIX, um palacete foi construído ali por Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota, o Duque de Saxe, genro de Dom Pedro II. Em 1865, o duque doou a grande mansão para que o governo federal a transformasse em centro de pesquisa sobre a cultura indígena, de acordo com o texto “Resistem as gentes na Aldeia Maracanã”, publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Ainda segundo o Cimi, essa destinação inicial não se realizou e “a casa acabou abrigando a Escola Nacional de Agricultura”. 

A citada “Escola Nacional de Agricultura” foi, na verdade, a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária (Esamv), criada em 20 de outubro de 1910, sendo o embrião histórico da atual UFRRJ. A instituição ficou pouco tempo no local, transferindo-se para outros pontos até sua chegada a Seropédica no final dos anos 1940.

De acordo com o Cimi, décadas depois este antigo prédio sediou o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, em 1953, “retornou para a vida indígena, quando Darcy Ribeiro instituiu o Dia do Índio e criou ali o museu”. Em 1977, esse museu foi transferido para o bairro do Botafogo e o prédio no Maracanã ficou abandonado.

Desde 2006, Urutau e os membros da comunidade da Aldeia Maracanã batalham pela conservação do espaço, pela garantia dos direitos dos povos indígenas e pela criação da primeira Universidade Indígena brasileira.

O título de Honoris Causa a José Urutau reconhece essa luta. E o grito de “Aldeia resiste!”, entoado ao fim da cerimônia, reforça essa causa.

Texto: João Henrique Oliveira (CCS/UFRRJ)

Fotografias: Miriam Braz (CCS/UFRRJ)