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Aquífero ameaçado

Leandro Dias de Oliveira alerta sobre riscos que envolvem a operação de aterro sanitário em Seropédica

Por Michelle Carneiro (CCS/UFRRJ)

Leandro Dias. “Estamos diante de uma questão central para a região, que não pode ser, sob nenhuma hipótese, menosprezada”

Se, por si só, a destinação do lixo urbano se apresenta como um dos grandes desafios atuais, o possível vazamento de
chorume sobre um aquífero acentua o problema. Em entrevista ao Rural Semanal, o professor do Departamento de Geografia (DGG/IA) e do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGGEO) da UFRRJ, Leandro Dias de Oliveira, discorre sobre impactos socioambientais do Centro de Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos do Rio de Janeiro (CTR-Rio).

A operação de um aterro como o CTR-Rio, localizado em Seropédica, envolve muitos riscos?

Leandro Dias – Em 2014, orientei uma aluna na graduação em Geografia, a Maria Fernanda Affonso-Penna, cujo trabalho
de conclusão de curso detectou: a dificuldade, quando não o impedimento, de visitação de estudantes e pesquisadores à CTR; a existência de fortes odores na região do entorno; a inexistência de vegetação para recobrimento do talude [inclinação na superfície lateral de um aterro]; o descompasso entre os pareceres técnicos e atuação da empresa, no que se refere, por exemplo, ao cálculo da Estimativa de Vida Útil do Aterro, se 15 ou 20 anos; o diálogo com as populações do entorno, como da Agrovila do Chaperó; e, evidentemente, o impacto no Aquífero Piranema. A estudante já alertava, há cinco anos, sobre o não cumprimento do tratamento do chorume na estação de Seropédica, o que, naquele momento, já vinha representando um grave problema ambiental, tendo em vista que se fazia um transporte desse resíduo extremamente poluente por uma longa quilometragem, dispersando esse material por diversas localidades. Os acertos posteriores, com a inauguração da Estação de Tratamento de Chorume dentro da unidade, pelo jeito não foram capazes de superar tais problemas.

Segundo relatório divulgado recentemente pelo Tribunal de Contas do Município do Rio (TCMRJ), a concessionária Ciclus Ambiental do Brasil S.A, operadora do aterro, não tem tido capacidade de tratar todo o chorume produzido no local. Qual a principal consequência de um possível vazamento desse resíduo?

L. D. – O maior impacto é justamente a contaminação do Aquífero Piranema, protegido por areia e sedimentos permeáveis,
mais frágeis na contenção da infiltração de chorume e de outros contaminantes. Além da contaminação de reserva  estratégica de água, há certamente o espraiamento da contaminação, atingindo outros fluxos hídricos da região e contaminando o próprio solo.

Além do prejuízo ambiental, esta também seria uma questão de saúde pública?

L. D. – Ainda que indiretamente, toda contaminação desse porte é caso de saúde pública. Em consulta ao meu colega de departamento, especialista em Planejamento Ambiental, professor Heitor Soares de Farias, dos odores aos mosquitos, da poluição do solo e contaminação da agricultura local aos demais riscos epidemiológicos, estamos diante de uma questão central para a região, que não pode ser, sob nenhuma hipótese, menosprezada.

A instalação do aterro sanitário em Seropédica foi um equívoco? Quais seriam as alternativas para destinação adequada do lixo produzido pelos municípios do Rio, Itaguaí e Seropédica?

L. D. – Diariamente, segundo a página eletrônica da própria empresa, o CTR-Rio recebe cerca de 10 mil toneladas de resíduos coletados nos três municípios. Um automóvel hatch pesa em torno de uma tonelada, como o caso de um Fiat Palio 1.0. São, nesta comparação, 10 mil automóveis por dia de lixo depositado no aterro! Assim, humildemente, entendo que o lixo metropolitano deveria ser tratado em várias unidades menores, espalhadas em locais escolhidos cuidadosamente em
diferentes municípios da região por equipes técnicas multidisciplinares, de maneira a minorar os impactos da construção de
um aterro. O tempo de vida de um aterro sanitário deveria ser sempre tratado com esmero, também por equipes técnicas, de maneira a evitar qualquer problema de superutilização. É ponto-pacífico que não são necessários estudos aprofundados para reconhecer que construir um aterro sanitário sobre um aquífero é algo profundamente impactante para com o meio  ambiente. Portanto, mesmo no município de Seropédica, havia outros lugares menos perigosos para sua edificação. Desta forma, o vazamento de chorume e contaminação do aquífero não poderá, sob nenhuma hipótese, ser considerado um acidente de percurso.

 

Publicado originalmente no Rural Semanal 04/2019.


Postado em 20/05/2019 - 10:00

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